[António Ramos Rosa, in Deambulações Oblíquas]
«O título do livro pensara nele enquanto olhava fixamente para a montra de uma pastelaria cheia de porquinhos de maçapão. Há já algum tempo que eu andava interessada na questão do canibalismo simbólico.Na altura, eram os bolos de casamento, encimados pelos seus noivos de açúcar, que muito em particular me fascinavam», Margaret Atwood
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Vermelho
[António Ramos Rosa, in Deambulações Oblíquas]
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Até a mãe estranha...
Dreamtime
Descobrir, de súbito, o que queremos mesmo fazer na vida, fazer da vida, fazer com vida, traz um entusiasmo inesperado. Espero que este entusiasmo não seja passageiro, como as nuvens, mas que crie raízes para consolidar o sonho que me caiu no regaço.
Às vezes, andamos às apalpadelas, temos uma ideia etérea na cabeça, e de repente: eis, é mesmo isto. E só nos espantamos por não termos visto, há muito e com toda a clareza, o que é óbvio. Não há nariz obstruído que me tire o sorriso do peito. Por isso, nada como uma música com power para alimentar este estado de espírito.
E se ficasse sem a sua ciberhorta?
Imperdível o texto «E se de repente lesse "o seu blog não está mais disponível"?» , no Certamente!, de Paulo Querido.
O desaparecimento do 360º é o desaparecimento de 10,8 milhões de páginas e 3 milhões de links que subitamente deixarão de levar a algum lado. E estamos a falar e um serviço com a morte decretada há 18 meses.
Se o Blogspot fizesse o mesmo, 16 milhões de blogs fechavam. 420 milhões de páginas sumiam-se dos arquivos e dos motores de busca. 70 milhões de links seriam inutilizados. Pense em quantas das suas horas de dedicação eram evaporadas. Pense nisso na próxima vez que abrir um blog ou plantar a semente da sua marca num terreno sobre o qual não tem nem jurisdição nem controlo».
domingo, 31 de maio de 2009
Da ruralidade
Irrito-me, com alguma solenidade, quando a comunicação social (cs), da qual faço parte, trata quem vive fora de Lisboa como gente parola, ignorante e feia. A cs gosta de ir até ao que detestavelmente designa por «Portugal profundo» e encontrar personagens risíveis ou dignas de dó, para encaixarem na ideia feita que têm sobre o que é isso de viver no interior do país.
O estereótipo é muito condizente com a escassez de tempo e dinheiro que as redacções vivem. E como a maioria dos jornalistas vive em Lisboa, e muito centrados na redacção, nas fontes do costume, nos ambientes citadinos do costume, quando saem para o «mundo real» (designação que só vem reforçar o facto de muito jornalista viver desligado das vivências de uma grande parte do país, à beira-rio plantada), toca de procurar o estereótipo. Porque é giro mostrar à urbe como se vive nesses locais exóticos chamados de aldeias e dar a conhecer pessoas, tadinhas, broncas que valha-lhes deus.
O estereótipo pode ser a velhota toda vestida de preto, lenço na cabeça e buço viçoso, pode ser a pessoa de Biseu que fala axim ou a pexoa de outro xítio qualquer desde que fale axim. O estereótipo passa por um jornalista ir fazer uma reportagem a Oliveira do Douro, em Cinfães, distrito de Viseu, sob o pretexto de se tratar da freguesia que registou a abstenção mais elevada nas últimas eleições europeias, e tratar, de forma humilhante as fontes. Se Oliveira do Douro é a freguesia mais abstémica, vamos lá mostrar o porquê. A ideia é boa. O resultado decepcionante.
Vem isto a propósito de quê? De um artigo escrito por JFG, nesta edição do SOL. Aprecio o trabalho do JFG (e foi com espanto que vi que o texto era assinado por ele). Mas a reportagem «Longe da Europa» está longe de me motivar elogio.
A reportagem começa desta forma: «Fátima, de 44 anos e feições rurais, tem ideia de que em Junho haverá umas eleições. “São para a Junta de Freguesia, ‘num’ é?». O que são feições rurais? De que forma o facto de se nascer em meio rural condiciona os traços do rosto? Alguma vez algum jornalista escreveu: «Mário Lino, ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, 69 anos e feições rurais»? Não, pois não...o senhor ministro pode ter feições grosseiras, mas nunca foi chamado de rural ou boçal num texto jornalístico, pois não? Dias Loureiro (natural de Aguiar da Beira), Jorge Coelho, (natural da aldeia de Contenças-Gare, em Mangualde) ou Pinto Monteiro (de Porto de Ovelha, em Almeida) nunca foram tratados, na cs, como pessoas com feições rurais, pois não? Se o JFG queria dizer que a senhora dona Fátima não devia muito à beleza, mais valia dizer que ela é esteticamente pouco agradável (que é menos fruto da circunstância geográfica e mais dependente da genética ou do desleixo).
Na reportagem lê-se ainda: «A conversa do SOL com uma funcionária é interrompida aos gritos pela «responsável», uma mulher gorda e antipática, de voz bruta». Como? Chama-se assim, com todas as letras, alguém de gordo, antipático e ainda se diz que a voz é bruta??? Já viram jornalistas a ousarem chamar algum político de gordo (mesmo que o seja), antipático (mesmo que o seja) e a acusarem-no de ter voz bruta (mesmo que a tenha), perante a recusa em prestar declarações? Não, não se chama alguém com poder de nomes feios, muito menos num texto jornalístico. Até porque gente com poder tem advogados.
Pelo meio do texto, JFG ainda fala dos «dentes amarelos e espaçados» de Nazaré, uma mulher de 65 anos. Um pormenor importantíssimo que ajuda a perceber o facto da senhora dona Nazaré confundir o nome Paulo Rangel com Paulo Regente. O problema da falta de informação ou desinteresse deve estar ligado a um problema de dentição. Deve ser isso.
Que JFG tenha ficado incrédulo com tamanha ignorância das mulheres de Oliveira do Douro (só falou com mulheres, curioso), compreendo. Eu também fico atónita de cada vez que encontro pessoas, rurais ou citadinas, com os horizontes mais curtos que os do frango de aviário. Mas da estupefacção à ofensa vai um passo…o passo (im)ponderado da escrita. E o resultado final da reportagem humilha as mulheres de Oliveira do Douro.
P.S. Sublinho que tenho o maior respeito profissional por JFG. Considero-o um bom jornalista e não é este trabalho que muda a minha opinião sobre as virtudes de JFG. Este post "serve-se" apenas de um artigo recente, em que é visível o olhar preconceituoso que se lança sobre o meio rural, para abordar uma questão que é prática comum no jornalismo. Foquei-me no texto de JFG porque foi o exemplo mais recente que me passou pelos olhos. E só por isso.
Mileuristas (ou menos ainda)
Babylosers, Geração Peter Pan, Pobres limpios, mileuristas...nenhuma das designações alegra a alma ou o bolso. Adeus, classe média.
«Hace cuatro años, Carolina Alguacil hizo una definición precisa y certera cuando acuñó el término de mileurista. "Es aquel joven licenciado, con idiomas, posgrados, másteres y cursillos (...) que no gana más de mil euros. Gasta más de un tercio de su sueldo en alquiler, porque le gusta la ciudad. No ahorra, no tiene casa, no tiene coche, no tiene hijos, vive al día... A veces es divertido, pero ya cansa". Si hubiera que reescribir ahora esa definición sólo habría que añadir: "El mileurista ha dejado de tener edad. Gana mil euros, no ahorra, vive al día de trabajos esporádicos o de subsidios y, pese a todo, no se rebela».
sexta-feira, 29 de maio de 2009
Públicas virtudes
A origem do mundo, de Gustave CourbetNão vejo onde está a controvérsia
«We have the wrong analogy when it comes to treating cancer. Instead of the analogy between cancer and bacterial infections, we should be using an analogy between cancer and invasive species. The goal is not to eliminate pests because applied ecologists have learned that’s futile. Instead what they’ve learned to do is to keep the pests at a tolerable level».
Não vejo mesmo controvérsia alguma na proposta desassombrada do médico radiologista Robert Gatenby. Quando não há cura possível, a aposta deverá ser maximizar a qualidade de vida do doente oncológico.
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Globos de ouro na Índia

quarta-feira, 27 de maio de 2009
i9

terça-feira, 26 de maio de 2009
Vítimas da poupança
«Nunca pensei que reivindicar a possibilidade de levantar o dinheiro que é meu fosse notícia num país da Europa. Já tinhamos ouvido falar disso noutras latitudes, mas na Europa, e em Portugal, é incompreensível. Xulio, galego, quer ser identificado apenas como «Xulio, cliente do BPP». «Ou melhor dizendo vítima. Porque eu não sou cliente, sou vítima de uma campanha comercial muito bem montada, que me convenceu a depositar dinheiro num banco que eu pensava sério, porque a pessoa que me convenceu era uma pessoa muito séria».
[Público, 26 de Maio de 2009]
Existem as vítimas do consumismo e também as vítimas da poupança. No caso do BPP, a confiança na seriedade de uma instituição bancária transformou os clientes em vítimas.
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Sonhos (de)pendurados




domingo, 17 de maio de 2009
Vida.com
Já vos disse o quão me toca este filme? Não, pois não. Nem conseguiria quantificar.
A minha vida enche-se de ternura com «A minha vida sem mim», de Isabel Coixet. Uma pérola, que guardo na concha das vibrações emocionais.
Pés de barro
O Modelo Vermelho (1937), René MagritteCANCER CELLS
"Cancer cells are those which have forgotten how to die."
(Nurse, Royal Marsden Hospital)
They have forgotten how to die
And so extend their killing life.
I and my tumour dearly fight.
Let's hope a double death is out.
I need to see my tumour dead
A tumour which forgets to die
But plans to murder me instead.
But I remember how to die
Though all my witnesses are dead.
But I remember what they said
Of tumours which would render them
As blind and dumb as they had been
Before the birth of that disease
Which brought the tumour into play.
The black cells will dry up and die
Or sing with joy and have their way.
They breed so quietly night and day,
You never know, they never say.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Fertilidade


quarta-feira, 13 de maio de 2009
terça-feira, 12 de maio de 2009
i não é que é estranho?
Não sei, pode ser ingenuidade minha (será com certeza), mas soa-me a esquisito que um grupo de comunicação (que agora tem um jornal nacional) ande a ceder notícias à concorrência. Sim, porque é cedência. Os jornalistas do jornais regionais não ganham mais por verem os seus textos publicados no Expresso.
A parceria só se manterá se houver cifrão a falar mais alto, que o Grupo Lena não tem feitio benemérito. A Rede Expresso, constituída pelo Expresso e 17 jornais regionais, para além da colaboração editorial, desenvolve parcerias também no campo da publicidade. Sendo o projecto gerido pela central de publicidade Meioregional, participada por quem, por quem? Pela Sojormedia.
Será que a Sojormedia despreza assim tanto as suas publicações regionais ao ponto de, tendo em conta uma estratégia comercial, ceder conteúdos dos regionais para o semanário do grupo Impresa?
Estranho que, ainda há duas semanas, jornalistas dos jornais regionais da Sojormedia tenham ido a Lisboa ter uma acção de formação...no Expresso, sem passagem pela "nova-rica" redacção do i. Foi com certeza por uma questão de prudência, não fossem os jornalistas da "província" querer também frutinha fresca na redacção ou um espaço lounge para descomprimir.
Enquanto nasce o i, desfalecem os jornais O Aveiro e O Eco. Para já, estes semanários passam a mensários e gratuitos. Qual será o desfecho, qual será?
domingo, 10 de maio de 2009
Reverso






«Se a beleza, cuja perfeição rejeita a animalidade, é apaixonadamente desejada é porque nela a posse introduz a mancha animal. É desejada para ser manchada. Não por si mesma, mas pela alegria gozada na certeza de a profanar.
[Georges Bataille, in O Erotismo]
Beleza, náusea. Intimidade, violação. Amor, brutalidade sexual. A subtileza de Monica Belucci [deusa, deusíssima], a corrupção moral do personagem Ténia. O destapar da boca, na cama, no túnel, porque as premonições não se calam. Não se entra em «Irreversível» confortavelmente. A banda sonora irritante, as imagens que nos colocam a cabeça do avesso, o nojo. O filme, de Gaspar Noé, entra em nós, lancinante. Permanece em nós, no estômago. Um filme brilhante, no toque do buraco negro da matéria humana.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
i quê?
Imagem de Valerie KabisHoje podes deitar-te na minha cama
e contar-me mentiras - dizer, não sei,
que o amor tem a forma da minha mão
ou que os meus beijos são perguntas que
não queres que ninguém te faça senão
eu; que as flores bordadas na dobra do
meu lençol são de jardins perfeitos que
antes só existiam nos teus sonhos; e que
na curva dos meus braços as horas são
mais pequenas do que uma voz que no
escuro se apagasse. Hoje podes rasgar
cidades no mapa do meu corpo e
inventar que descobriste um continente
novo - uma pátria solar onde gostavas
de morrer e ter nascido. Eu não me
importo com nada do que me digas esta
noite: amo-te, e amar-te é reconhecer o
pólen excessivo das corolas, o seu vermelho
impossível. Mas amanhã, antes de partires,
não digas nada, não me beijes nas costas
do meu sono. Leva-me contigo para sempre
ou deixa-me dormir - eu não quero ser
apenas um nome deitado entre outros nomes.
[Maria do Rosário Pedreira, in Nenhum Nome Depois]
P.S. Este livro já cá mora há uns anos. Mas não o folheava há bastante tempo. Fiquei arrepiada ao ler a frase a negrito. Pólen, vermelho. Uns posts atrás e percebe-se a razão do meu espanto.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
O amor é cego
Beleza instrumental
segunda-feira, 4 de maio de 2009
(des)norte
Três dias passados com vista para o mar. E não houve o apelo marítimo. Nem um pé na areia [e bastaria atravessar a rua]. Definitivamente, sou mais uma rapariga do campo do que do mar. Sou mais do verde do que do azul, mais do que se transforma durante as quatro estações do que das marés. Das dunas guardei o odor a caril das perpétuas-das-areias. Nos passos trouxe a serenidade do trajecto de pinhal entre Apúlia-Ofir-Fão. O cheiro quente da natureza.
Paz, riso, fuga à rotina, pêlo de cão, conversas descontraídas, cansaço do bom.
O norte e o desnorte dão muito sentido à vida.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Apagão
Viva a biodiversidade.
Não gosto de conversas porcas...
Os media ainda não se lembraram de contabilizar o número de pessoas que morre de tédio? Ou o número de pessoas que morre de susto? Ou o número total de pessoas que, por dia, simplesmente morre, de morte morrida ou de morta matada ou de morte fictícia?
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Confiança

Mas vi-o. Os olhos não vêem tudo.
Agora vou aqui revirar a alma, para ir para a cama uns metros acima do chão.
[Só espero que, nos sonhos, não me apareça a Manuela Ferreira Leite a deitar a língua de fora ao Mário Crespo, à porta de um certo supermercado de bairro]
Estado da Questão
Imagem de Koltsova EkaterinaSei que nunca viste as tuas costas. Lá chegarei.
[Joana Serrado, in Tratado de Botânica]
domingo, 26 de abril de 2009
Bela adormecida
Imagem de Sophie PawlakEla tinha pés de barro
e sonhos em brasa.
Nas mãos, o evanescente.
[ânsia crescente]
Quis regressar à infância,
mas encontrou demolida a memória: sem migalhas,
sem Hansel e Gretel.
Tudo o que temos
Imagem de Thierry Magniezquinta-feira, 23 de abril de 2009
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Novo mandamento: Não tuitarás

Se fosse homem...
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Give power to designers
sábado, 18 de abril de 2009
Precisar de ar, ar, árvore
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Prima obra
Imagem de Oana Cambreaterça-feira, 14 de abril de 2009
Tragedy is no longer possible


Em «Inferno», com guião de Krzystof Kielowski e realização de Danis Tanovic, paira a tragédia grega Medeia, de Eurípedes. Três filhas subterraneamente destruídas; três mulheres que nunca se libertaram do desamparo da infância. Uma mãe, muda e agarrada a uma cadeira de rodas, que, no final, nos tira o chão.
[Não falei em crueldade, pois não?]
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Sou toda ouvidos
Obrigada A., pelo envio de tamanha beleza. Pólen, abelhas. Picadas que fazem perder a inocência.
«When the dog bites, when the bee stings, when I'm feeling sad, I simply remember my favorite things and then I don't feel...»
sábado, 11 de abril de 2009
All you need is gods
Imagem de Helena Almeida«A questão não reside no silêncio de Deus, mas no silêncio de nós próprios. Tornamo-nos seres mudos, atravessamos a vida sem dizer palavras fundamentais. E isso gera uma atmosfera que nos atordoa, a tal dor mansa quase vegetal de que falava Alexandre O'Neill. A dor do Homem».
José Tolentino Mendonça, in DNa [n.º 164,22.01.2000]
quinta-feira, 9 de abril de 2009
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Caligrafia da ternura
Um barco de papel.
QUERO:
Bora lá até ao parque de campismo
«Não lhes falta nada. Têm cuidados médicos, comida quente... Claro que o actual lugar de abrigo é provisório, mas há que encarar a situação como um fim-de-semana no parque de campismo».
[Sílvio Berlusconi]





