terça-feira, 26 de maio de 2009

Vítimas da poupança

Imagem de Julie De Waroquier



«Nunca pensei que reivindicar a possibilidade de levantar o dinheiro que é meu fosse notícia num país da Europa. Já tinhamos ouvido falar disso noutras latitudes, mas na Europa, e em Portugal, é incompreensível. Xulio, galego, quer ser identificado apenas como «Xulio, cliente do BPP». «Ou melhor dizendo vítima. Porque eu não sou cliente, sou vítima de uma campanha comercial muito bem montada, que me convenceu a depositar dinheiro num banco que eu pensava sério, porque a pessoa que me convenceu era uma pessoa muito séria».

[Público, 26 de Maio de 2009]


Existem as vítimas do consumismo e também as vítimas da poupança. No caso do BPP, a confiança na seriedade de uma instituição bancária transformou os clientes em vítimas.
Mas existe quem se transforme, por vontade própria, em vítima da poupança. Gente que retrai a existência até ao nível mais básico. Como é o caso de pessoas que auto-impõem uma vida de miséria, para se poderem regozijar com uma conta bancária milionária. Morrem de coração e horizonte vazios, mas com conta bancária cheia. A verdadeira pobreza de espírito.
Conheço quem tenha uma avultada soma de dinheiro e nunca use fogão a gás (nem para fazer um chá), apenas fogão de lenha todo o ano. No Inverno, a única divisão quente da casa é a cozinha. Têm máquina de lavar roupa e nunca a usam, optando pela utilização do tanque de água fria. Têm roupa impecável no guarda-fatos (inebriada pelo cheiro a naftalina) e usam qualquer coisa que na falta de melhor termo se designará por trapos. Toda a roupa é ponteada até à exaustão, como facilmente percebe quem se cruze com eles na rua. Têm um filho único a quem não dão, nem nunca deram afecto (meteram o filho num colégio interno não por preocupações educacionais, mas para o terem à distância). Têm dois netos que não acarinham, em palavras ou actos. Muitas omissões. Ausência de gestos meigos e ainda menos de dádivas monetárias.
Tempos houve em que os netos, quando festejavam a data de nascimento, levavam bolo de aniversário a casa dos avós. Levavam por atenção, para mimarem os avós. Quando perceberam que a oferta de bolo era encarada, pelos avós, como uma dádiva que exigia um cheque em troca, os netos deixaram de ir lá nos aniversários. «Sabes, não temos nada para te dar» ou «Olha, o cheque vai ser pequeno porque tivemos muitas despesas», era o que de mais simpático saía daquelas bocas. Os netos, já na idade adulta, sentiram mesmo que aqueles avós não tinham nada para dar, nada do ponto de vista humano entenda-se. Desistiram deles. A linguagem do amor não se traduz na assinatura de um cheque.
Este casal costuma dizer ao filho: «Quando morrermos, ele cá fica». Ele, o dinheiro. Ele, o dinheiro, que será herdado porque não é possível levá-lo para a cova. Um dia, a avareza irá ser a carpideira de serviço. Haverá maior miséria que esta?

3 comentários:

Robin K disse...

certamente que não há.

Filipa Júlio disse...

nope.

Alexandre disse...

cada um vive a vida como quer. em todo o caso, a história narrada faz-me lembrar o que disse o advogado do Howard Hughes quando interpelado, no dia da morte do seu cliente, sobre quanto dinheiro teria deixado ele. e a resposta foi curta e incisiva: "deixou tudo".