Sábado, 11 de Fevereiro de 2012

Vertigem

Imagem de Cassie Kammerzell

Queria ver a imensidão do mundo.
Subiu alto, muito alto, e muitas vezes - deixou de ver a maçã a ruborescer.
Um dia veio a vertigem: só então percebeu a diferença entre subir e crescer

Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

Da (im)preparação para a morte

Nestes últimos dias, muito se tem falado em mortes desumanas. Em idosos que são encontrados, sem vida, em casa, semanas, meses, depois de a morte os resgatar. Em idosos que morrem em hospitais.

Mas desumano não é morrer num hospital. Desumano é morrer sem amor. O amor não surge espontaneamente, sem semente, no aproximar da morte. O amor é um projecto de vida. Ou cativamos os outros  - e o seu amor - ao longo da vida ou  não se espere que ele nasça nas horas que antecedem a agonia.

E não se ama menos por deixar que um dos nossos morra numa cama de hospital. Haverá quem abandone os seus à vida, e à morte. Há quem arrede a velhice, colocando-a em lares. Há quem se arrede da velhice, entregando os seus à solidão. Há quem não queira saber dos seus velhos da mesma forma que não quiseram saber deles enquanto novos. Há quem não queira saber dos seus velhos porque nunca existiram laços profundos, para além daqueles que o sangue impõe. Há quem não queira saber dos seus velhos porque estes nunca foram flor que se cheire. Há quem não saiba amar. Há quem não saiba tornar-se amado. A velhice só torna a falta de amor mais dramática.

A minha experiência fala-me de amor. Na minha família não se deixou morrer ninguém ao desamparo. E eu nasci rodeada de avós e bisavós. O que significa que já perdi muitos dos meus. Alguns muito precocemente: a minha avó materna, a minha mãe. Muitos dos meus morreram em ambiente hospitalar. Se morressem em casa não teria sido melhor, nem menos doloroso. A morte nunca é fácil, nem nunca se está preparado. Não há manuais que nos valham. Não há soluções ideais para a morte porque a vida não é perfeita. E por isso não o é também no capítulo final.

Há pouco menos de cinco anos, a minha família levou com um murro no estômago chamado cancro colorrectal T4.  Um tumor T4 é uma morte anunciada. A expectativa médica era que a minha mãe vivesse apenas um ano, dois no máximo. Após o diagnóstico, viveu quatro anos e meio, cinco operações, 40 e muitas sessões de quimioterapia, uma ostomia, duas nefrostomias. 

 A minha mãe superou as expectativas porque era uma mulher forte, porque era amada porque amava a vida. Tenho a certeza disso. E porque teve um médico, uma equipa médica, que nunca desistiu dela. Por isso, naquela manhã em que se viu ao espelho e teve consciência da cor amarela com que estava, sinal de metástases hepáticas, quis ir para o hospital. Ela sabia que aquela era a última viagem que faria, com vida. Foi pelo pé dela, o meu pai conduziu-a. Ele também sabia que o amor da vida dele não sairia mais do hospital.

A minha mãe sabia que no hospital seria tratada da melhor forma possível, pela equipa do doutor Leitão. E foi. Foi acarinhada por todos e teve, tivemos, a sorte de ela poder ficar num quarto individual. A nutricionista foi visitá-la para lhe perguntar o que queria comer. E comeu, de facto, aquilo que lhe apetecia. Até o arroz de feijão. Foi mimada, tanto quanto alguém podia ser. E não teve dores. De certa forma, despediu-se de nós, enquanto ainda tinha capacidades para isso. Depois, o depois, não há como evitá-lo. A dor de ver quem se ama em agonia. Não há como fugir dela. Morre-se sempre só porque há uma altura em que a comunicação deixa de ser possível. Mesmo que continuemos a falar com quem estamos prestes a ver partir.

Nos últimos dias de vida da minha mãe, os nossos passos em direcção ao hospital deixaram de ser entusiastas e passámos a ter passos arrastados, como se o peso no peito colasse os pés ao chão. Víamos no olhar dos enfermeiros a tristeza, a tristeza de verem partir uma mulher que lutou tanto e com a qual foram criando amizade, ao longo dos anos. A minha mãe sentia-se em casa, ali, no Hospital S. Teotónio. Ela chegou a dizê-lo. Por isso quis morrer ali, sem dores, sem sofrimento físico. Quis também preservar-nos de a vermos  morrer com dores. Sei-o.

Todos sabíamos que ela ia morrer. Tentei preparar-me. Cheguei a comprar, por recomendação de um amigo médico,  o livro «Acolher a morte», de Elizabeth Kübler-Ross. Hesitei em trazer o livro da Fnac, como se o livro me queimasse as mãos, como se o simples facto de comprar aquele livro  fosse um sinal de que eu tinha assumido a derrota. Comecei a lê-lo só pouco tempo antes da morte da minha mãe. Desisti. Nunca estamos preparados para aceitar a morte de quem se ama. Nunca. Por muito que a morte seja expectável, por muito que se sinta que se disse e mostrou o quanto se ama o outro.

Aliviou saber quais os recados que a minha mãe deixou com uma grande amiga. E saber que mesmo sem recado, nós teríamos feito exactamente o que a minha mãe queria: ser velada em casa; ser enterrada na campa da mãe dela. E saber que ela quis que nós soubéssemos que foi muito feliz com os filhos que teve e tem;  e com o marido que teve e tem.

O amor não desaparece com a morte.


Domingo, 29 de Janeiro de 2012

Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012

Respira acção

Desenho de Miguel Horta

Na lisura da mão nocturna
O coração fóssil ganhou vegetais gestos - 
'Fotossinto-te', murmurou ao mundo.


Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

Domingo, 22 de Janeiro de 2012

Desfolhar

Ilustração de Gabriel Pacheco

Queria desfolhar-me
do alfabeto de luz e sombra.
Ser a primeira madrugada do mundo.

Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011

Um fosso nem sempre é uma falha



 Imagem do filme Nothing Personal, de Urszula Antoniak


 Um fosso nem sempre é uma falha.
Veja-se o amor: um socalco ao qual não se chega sem escavar. O labor.
Um degrau com a profundidade dos passos sintonizados.


Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011

Da inutilidade das palavras



Há dias em que não se querem palavras.Só a pontuação

ESSENCIAL.

Um ( ) em torno de nós. 
Uma ! a cair direitinha no estômago.

Um . nas dúvidas. Na dúvida.
.


Domingo, 16 de Outubro de 2011

Reverdeces


Abro-te nas gavetas da memória.
Reverdeces.
A fertilidade das minhas lágrimas.

Sábado, 15 de Outubro de 2011

É a vida

E a vida é isto. Lado a lado.

Sábado, 17 de Setembro de 2011

Luto

O luto não é a ausência de luz. O luto é a emigração de palavras essenciais para parte incerta. O luto é saber que posso dizer mil vezes 'mãe'. Mas que nunca mais te ouvirei dizer 'filha'.

Terça-feira, 16 de Agosto de 2011

Sexta-feira, 22 de Julho de 2011

A tua vida é que é uma ilha, não tu

Edward Hopper


Aviso à navegação: O que abaixo se segue foi descaradamente furtado no There's only 1 alice.
Link

«Às vezes não te compreendo bem.»
«Sou uma ilha pequena, Paula.» Sim, uma ilha pequena, sem arquipélago, e à volta o oceano desconhecido e um nevoeiro tão denso que não deixava ver os barcos, se os havia. Mas era natural que os houvesse. Há sempre barcos em volta das ilhas. Estivera um dia numa ilha assim… A voz de Paula ria na sua sala, no seu divã. «Todos o somos, não és original.» «Mas eu sou aquela ilha.» Pequena e com praias de cascalho, não muito belas, e voltadas para oriente. O sol abandonava-as a meio da tarde e então fazia frio e a água ainda há pouco morna e confortável tornava-se gélida, matéria opaca, cheia de vida, de morte e de mistérios. Só havia uma coisa a fazer, subir, subir à procura de um resto de sol. Mas do lado ocidental era o reino das gaivotas e dos rochedos a pique. Coisas só para olhar. Ruídos que eram silêncio. E acabava sempre por regressar à tenda onde estava acampada com uns amigos. Cansada. Farta. A querer ir-se embora e sem partir. «Mas a tua vida é que é uma ilha, não tu.» «Sim, a minha vida», concordou Jô. «Mas o que sou eu sem a minha vida, o que somos nós sem ela?» «Bem, é tarde, vou deitar-me», disse Paula. «E o teu caso, na mesma?»

Maria Judite de Carvalho

Sou toda ouvidos

Quinta-feira, 5 de Maio de 2011

Segunda-feira, 25 de Abril de 2011

Domingo, 24 de Abril de 2011

Icebergue de fogo























Imagens do filme «Eu sou o amor», de Luca Guadagnino



Presa à estação das lareiras -

as mãos árticas, o peito, os circulares passos.

Mãos desérticas que arrumam rotinas.

Mãos intactas, as tuas -

mãos nuas, recém-nascidas em mim.

De ti nasci-me lume, gume

que te quer amar até às veias.




Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011

A luta






Arrepanho-me toda para dentro -
querer ter apenas interior.
Fui sendo dentro e fora
e agora um amontoado de palavras-dor.

Ganhei infância e morte lesma:
um quarto de brincadeira séria.
O medo de querer ser eu e eu e Eu

Um corpo-jazigo,
o mármore mole da carne.

A luta arguta de mim contra mim.


Domingo, 13 de Fevereiro de 2011

Dias de tempestade

A Tempestade, de John William Waterhouse

Faz hoje uma semana que o meu avô paterno morreu, no hospital. Faz amanhã uma semana que o meu avô foi a enterrar. Nem eu, nem a minha mãe fomos ao funeral. Havia que cuidar dos vivos.

Enquanto decorriam as cerimónias fúnebres, a minha mãe estava a fazer quimioterapia e eu a acompanhá-la. Aí está um novo ciclo de tratamento. Até agora, a minha mãe já fez 44 sessões de quimioterapia. Quarenta e quatro. Entre as 9h00 e as 18h30 estivemos no hospital de dia. Durante aquelas horas foi entrando dentro de mim o olhar desesperado de uma outra doente oncológica. Cancro do pulmão. Enquanto fazia quimio, a senhora, de cabelo curto, recém-nascido, falou das noites mal dormidas, do sofrimento. Mas não precisava de dizer nada. Os olhos mostravam o que as palavras nunca teriam coragem de expressar: medo da morte, cansaço de lutar. Olhos que choram para dentro.

Este novo ciclo de quimio, está a ser o mais duro até agora. Cansaço extremo, vómitos, diarreia, mal-estar, cólicas, sonolência. Ontem tivemos de ir para a urgência. Enquanto a minha mãe estava a soro, na maca, procurei temporariamente descanso numa cadeira. Calhou sentar-me à porta do consultório de psiquiatria. Sai um homem de uma consulta e senta-se ao meu lado. Mete conversa. Pergunta-me se estou para a consulta de psiquiatria. Digo-lhe que não, que sou acompanhante de uma doente. Ele explica-me que se fosse doente psiquiátrica que mais valia bater à porta para falar com a doutora, que ela está de saída da urgência. Depois, começou a contar que sofria de depressão há dez anos. Nas mãos um saco plástico cheiinho de embalagens de medicamentos. Disse-me que percebia que «o copinho de leite» tivesse feito o que fez. Só com o desenrolar da conversa é que percebi que «o copinho de leite» a que se referia era o Renato Seabra.

«Sempre fui um homem calmo. Estou casado há 25 anos e por isso estás a ver que tenho um ambiente familiar estável. E, no outro dia, dei comigo com as mãos no pescoço da minha mulher, a esganá-la. E eu não me lembro de nada, devo ter tido algum lapso», desabafou ele comigo, uma desconhecida. O acto de violência não ficou pela mulher. Mais tarde, violentou a filha, no rosto. Sem encontrar justificação, nem ter memória do episódio. Ficou estupefacto quando viu sangue espalhado pelo chão e hematomas no rosto da filha.

O desespero nem sempre sobe ao olhar. Os olhos deste homem, de 49 anos, eram baços, vazios. A angústia colou-se toda às palavras. Aquele homem sabe que já se perdeu da vida e tem medo dele próprio, daí ter procurado ajuda médica. Não é a morte dele que o inquieta, é a possibilidade de, fora de si, tirar a vida ao Outro. Lucidamente, confessou-me: «Eu preferia ser internado a um dia ir parar a uma prisão».

Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011

Vermelho nascente

Imagem de Nicoletta Ceccoli


No dia em que ela se esqueceu de trancar a porta cardíaca,

fugiram todos os corvos (tinham ninhos atrás das mágoas).

Temeram que o vermelho nascente lhes tingisse as asas.

Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010

Porta aberta


Será que a força da intuição nos faz adivinhar o caminho, mesmo desconhecendo aonde queremos chegar?

Sabemos sempre quando chegámos a casa? Saberemos?

Quero tanto que esta porta se abra sempre para mim.
Quero.

Domingo, 5 de Dezembro de 2010

Solar

Imagem de Eliot Lee Hazel

Fomos almoçar àquele sítio de que não gostas particularmente. Um restaurante com comida bem feita, mas sem espaço para conversas íntimas. Mostraste-me um sms que o teu amor te enviou. Mostraste-me fotos do teu amor, de ti com ele, do beijo que vos coloca uns metros acima do chão. Contaste-me que lhe ofereceste uma carta de amor, no aniversário dele. Coisa em desuso, feita para amores que se querem eternos, como flores secas colocadas no meio das páginas de um livro. Eu tenho um trevo de quatro folhas aninhado nas páginas de «Doidos e Amantes», de Agustina Bessa-Luís. Já o tive no meio do livro «Eu espero...», de Davide Cali e Serge Bloch.


És um nico de gente, de estatura pequena, magrinha, que tenta esconder a feminilidade e sensibilidade no pragmatismo da notícia pura e dura. Eu disse que tentas. A mim não me enganas. Aprendi a ler-te para além da frieza que às vezes atiras para o colo dos que te rodeiam. Não dás confiança a quem não te interessa. Há coisas que lês, nos astros e nos gestos, que te fazem afastar de quem não acrescente interrogações à tua vida.


No final do almoço, disseste que me ias enviar a carta de amor que escreveste numa tarde febril, enrolada num cobertor. E enviaste. O teu amor, ao ler a carta, só podia mesmo ter virado nuvem com ânsias de chuva. E eu, ali, naquele momento em que os meus olhos chegaram ao ponto final do último parágrafo, fiquei comovida. Partilhaste-te comigo, sem medos. Deixaste que te visse despida, que te visse menina-mulher solar. Deixaste-me ver que um homem conseguiu resgatar, em ti, a criança que tu julgavas perdida. Tive a certeza que éramos amigas.

E, por isso, fui ter contigo, à tua secretária, e dei-te um beijo na face espantada.

Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

As minhas paredes até sorriam

«You make my heart sing»


« Dreams are my reality»




Qualquer uma destas serigrafias da Ana Ventura faria as minhas paredes sorrir.

(e sim, não é a primeira vez que falo nestas duas delicadezas)


Sexta-feira, 26 de Novembro de 2010

Quando é que se põem a andar, hein?


Caras saudades, ponham-se andar, sim?
Têm ordem de despejo. Saem a bem ou mal? Vou contar até três.


Um....

...........Dois

................................

Segunda-feira, 1 de Novembro de 2010

Amar o casamento

O Casal Arnolfini, de Jan van Eyck



«O casamento feliz não é nem um contrato nem uma relação. Relações temos nós com toda a gente. É uma criação. É criado por duas pessoas que se amam.

O nosso casamento é um filho. É um filho inteiramente dependente de nós. Se nós nos separarmos, ele morre. Mas não deixa de ser uma terceira entidade.

Quando esse filho é amado por ambos os casados - que cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro. Têm também de amar o casamento que criaram.

O nosso casamento é uma cultura secreta de hábitos, métodos e sistemas de comunicação. Todos foram criados do zero, a partir do material do eu e do tu originais».


Excerto de uma crónica de Miguel Esteves Cardoso, publicada no Público. E lida aqui, na íntegra.

Sou toda ouvidos

Quinta-feira, 7 de Outubro de 2010

Sou toda ouvidos

Dúvida

Imagem de Gregory Credwson

«O que é a Dúvida? Cada um de nós é como um planeta. Há a crosta, que parece eterna.

Estamos confiantes acerca de quem somos. Se nos perguntarem, sabemos descrever de imediato o nosso estado actual. Eu sei as minhas respostas para muitas perguntas, tal como vocês. Como era seu pai? Acredita em Deus? Quem é o seu melhor amigo? O que quer? As vossas respostas são a vossa topografia actual que parece ser permanente, mas que é enganadora. Porque debaixo dessa face de respostas fáceis, existe um outro Eu. E esse Ser sem palavras move-se como se move o instante que passa; pressiona para vir à superfície sem qualquer explicação, fluído e sem palavras, até que a consciência que resiste, não tem outra alternativa senão ceder.

É a Dúvida (vivida muitas vezes no início como fraqueza) que faz as coisas mudar. Quando um homem se sente inseguro, quando vacila, quando um saber arduamente conquistado se evapora diante dos seus olhos, é quando está no limiar do crescimento. A reconciliação, subtil ou violenta, da pessoa exterior com o seu íntimo parece muitas vezes, no início, um erro, como se avançássemos na direcção errada e nos perdêssemos.Mas isso não é senão a emoção que anseia pelo que lhe é familiar. A vida acontece quando o poder tectónico da nossa alma silenciosa irrompe através dos hábitos estagnados da nossa mente. A Dúvida não é mais do que uma oportunidade de reentrar no Presente. (...)

A Dúvida requer mais coragem do que a convicção, e mais energia; porque a convicção é um lugar de repouso e a dúvida é infinita - é um exercício apaixonado».

Abro a gaveta onde fui guardando, ao longo de anos, bilhetes de espectáculos e folhas de sala. À cabeça aparece a folha de sala do espéctaculo «Dúvida», uma parábola de John Patrick Shanley, com encenação de Ana Luísa Guimarães e interpretações de Eunice Muñoz, Diogo Infante, Isabel Abreu e Lucília Raimundo. Vi o espectáculo com um grupo de amigos e amigos de amigos nos finais de Janeiro de 2008.


Um espectáculo oportuno. Naquele período, muitas dúvidas despontaram com as chuvas invernais. Algumas desfizeram-se, como bonecos de neve beijados pelo sol. Outras, fortaleceram-se em terreno de pousio.


Resgato este excerto do texto da folha de sala, da autoria de John Patrick Shanley, porque sou uma mulher convicta no poder transformador da coragem. Uma mulher cheia de dúvidas, portanto.

Quarta-feira, 6 de Outubro de 2010

Sexta-feira, 1 de Outubro de 2010

Outonar II







As videiras ruborizam depois de vindimada a embriaguez.
O desejo reluz na pele das intactas bagas - o pedestal.
As amoras, essas, mirram à espera de quem as colha -
cabisbaixam-se e engolem a doçura.



Outonar I










As lajes envelhecidas pelas estações. A vegetação seca sob os pés. O estalido. Os despojos do Verão. A languidez.




Domingo, 26 de Setembro de 2010

Desta falta

Imagem de Annette Phrsson

«Desta falta de tempo, sorte, e jeito,
Se faz noutro futuro o nosso encontro.»

António Franco Alexandre

Sexta-feira, 30 de Julho de 2010

Dentro

Imagem de Laurie Simmons


Viver o cancro, morrer de cancro. Tenho medo da possibilidade. Dói-me, dentro da própria dor, ver também quem amo sofrer de cancro. Tenho medo. E só se espanta esse medo com o que é eterno. E eterno é o amor. Sim, o amor. Aquele amor inquebrável que, perante as adversidades, se fortalece. Porque esse amor existe. É obsceno, este amor: humilha quem vive relações de faz de conta.

A vida pode querer esboroar a fé no amor, pondo-nos à frente dos olhos relações em estilhaços. Multiplicam-se os finais de relações, nossas, dos outros ou de aqueloutros. Mas eu continuo a acreditar no amor. Não com a ingenuidade dos 19 anos, mas com a romântica lucidez dos 32.

Quero um amor como o dos meus pais. E quero que, um dia, um filho me abrace como eu abraço a minha mãe. E refile preocupadamente comigo como eu faço com o meu pai.

Saber que moramos no peito de alguém, saber que no abraço desse alguém nos sentimos em casa, sentir que, em redor do outro, podemos desvelar intimidade...haverá alguma coisa, além disto, que dê verdadeiro sentido à vida?



Viver

«Deixei de festejar os meus anos, não gosto destas coisas das datas. Não gosto de ter menos tempo do que já tive. Por isso, digo que a vida tem de ser larga, porque pode não ser comprida...»

Parece uma frase retirada do filme «Contraluz», mas o autor é mesmo António Mexia, presidente da EDP, em entrevista ao Expresso. A luz como denominador comum.

(à vida, além de largura, eu acrescentaria profundidade; e o Gonçalo M. Tavares, milagre...e este post fez-me lembrar um anterior)

A lição

Para António Feio, a aprendizagem sobre o que é isso de se ter cancro chegou ao fim. Passou com distinção.


«Não quero dar uma de herói. Sou um mariquinhas de caca como qualquer ser humano nestas condições. Tenho medo, tenho pavor. Mas não vou andar aqui a choramingar».

E não choramingou.
Morreu o homem, mas não morreu o exemplo.

Sábado, 24 de Julho de 2010

Ei-las

Imagem de Lane Coder


Aí estão as férias. Curtas, mas minhas.
Tudo o que quero:
o discreto rumor do estio.
vastidão.
sono sem a tirania do despertador.
leitura em silêncio.
trocar o eléctrico 28 pelo meu carro.
procurar o verde.
deitar a cabeça no colo materno.
O coração entre a doçura dos figos e as raízes dos girassóis.

Sexta-feira, 18 de Junho de 2010

Sábado, 12 de Junho de 2010

Mi(ni)stério da defesa

Imagem de Laurie Simmons

Ele tinha um desejo: queria que a sua pele fosse palimpsesto; e ela copista do mais redivivo poema de amor. Ela fazia-o pestanejar ternura. Mas ele não conseguia deixar de olhar para ela e ver uma arma apontada à sua própria testa, ao seu próprio coração. Ele queria despir a armadura dos gestos, abrir o peito ao fogo disparado pela sua própria mão. Mas não conseguia.Queria premir o gatilho, estilhaçar aquilo em que se tinha tornado a sua vida: um mi(ni)stério da defesa. Queria abraçá-la, sem braço de ferro. Mas os pensamentos antecipavam-lhe o sabor a pólvora que escorreria do beijo que nunca deram.

Fugia do gatilho, em vão.

Ainda não se tinha apercebido de que a bala, já há muito, lhe navegava na corrente sanguínea.


Opinem

Decidi mudar o visual desta casinha. O fundo negro deu lugar a outras cores. Acham que o novo look está comestível? Vá, digam de vossa justiça.

Domingo, 6 de Junho de 2010

Rasgão








Imagens do filme Anticristo, de Lars von Trier



«um rasgão de luz sobre a pele, dormes na seiva doce

das manhãs.

mas sabes que só há repouso para o sofrimento

quando se entra no primeiro dia dos dias sem ninguém.

a dor, a perna amputada, a chaga viva, o sangue a latejar - o mapa da abissínia.

o sol enterra-se nas areias.

viajo, sem me mexer desta enxerga branca.

tento encontrar espaço para a lucidez do meu silêncio.

no lugar do poema coalha o ouro das geadas, e os

animais são formas etéreas que se me colam ao rosto.

o que morre, quase não faz falta...

dantes ouvia o mar...bastava encostar a cabeça ao peito um do outro.»


Al Berto, in Horto de Incêndio


Do encantamento

Cada vez me maravilho mais com os livros para a infância.
Os grandes ensinamentos são minimais.

Domingo, 23 de Maio de 2010

A mudança

O tempo, passa, passa. E eu ainda não vos falei do desejo que está a ser cumprido, desde Janeiro. Tenho postado pouco, é um facto. E do pouco que tenho escrito por aqui, não vos contei que a mudança passou por ir para Lisboa. Talvez não tenha dito isso antes porque a mudança foi natural, como se o meu lugar fosse precisamente a mobilidade. Gosto de mim assim, a oscilar entre Campo de Ourique e o campo dos minhas origens.
Os amigos de sempre continuam a ser os amigos de sempre, a família - e em particular a minha mãe - felizmente (muito felizmente) tem andado bem, começam a crescer novas amizades e o coração, esse, continua a surpreender-se com o que se vai enraizando de mansinho.
Conheci pessoalmente a minha querida Viviane. E, graças à visita papal (que tanto trabalhinho me deu), estive pertinho de dois bloggers próximos cá da casa. Dois miguéis por acaso. Sim, confesso, estive ao pé de ti e de ti e não me apresentei. Desculpem o meu recato.

Sou toda ouvidos

Domingo, 16 de Maio de 2010

Dúvida existencial

( Imagem retirada daqui, via O Polvo)




Como é que duas ilhas se tornam num arquipélago?