«O título do livro pensara nele enquanto olhava fixamente para a montra de uma pastelaria cheia de porquinhos de maçapão. Há já algum tempo que eu andava interessada na questão do canibalismo simbólico.Na altura, eram os bolos de casamento, encimados pelos seus noivos de açúcar, que muito em particular me fascinavam», Margaret Atwood
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Dúvida
Estamos confiantes acerca de quem somos. Se nos perguntarem, sabemos descrever de imediato o nosso estado actual. Eu sei as minhas respostas para muitas perguntas, tal como vocês. Como era seu pai? Acredita em Deus? Quem é o seu melhor amigo? O que quer? As vossas respostas são a vossa topografia actual que parece ser permanente, mas que é enganadora. Porque debaixo dessa face de respostas fáceis, existe um outro Eu. E esse Ser sem palavras move-se como se move o instante que passa; pressiona para vir à superfície sem qualquer explicação, fluído e sem palavras, até que a consciência que resiste, não tem outra alternativa senão ceder.
É a Dúvida (vivida muitas vezes no início como fraqueza) que faz as coisas mudar. Quando um homem se sente inseguro, quando vacila, quando um saber arduamente conquistado se evapora diante dos seus olhos, é quando está no limiar do crescimento. A reconciliação, subtil ou violenta, da pessoa exterior com o seu íntimo parece muitas vezes, no início, um erro, como se avançássemos na direcção errada e nos perdêssemos.Mas isso não é senão a emoção que anseia pelo que lhe é familiar. A vida acontece quando o poder tectónico da nossa alma silenciosa irrompe através dos hábitos estagnados da nossa mente. A Dúvida não é mais do que uma oportunidade de reentrar no Presente. (...)
A Dúvida requer mais coragem do que a convicção, e mais energia; porque a convicção é um lugar de repouso e a dúvida é infinita - é um exercício apaixonado».
Abro a gaveta onde fui guardando, ao longo de anos, bilhetes de espectáculos e folhas de sala. À cabeça aparece a folha de sala do espéctaculo «Dúvida», uma parábola de John Patrick Shanley, com encenação de Ana Luísa Guimarães e interpretações de Eunice Muñoz, Diogo Infante, Isabel Abreu e Lucília Raimundo. Vi o espectáculo com um grupo de amigos e amigos de amigos nos finais de Janeiro de 2008.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
domingo, 26 de setembro de 2010
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Dentro
Viver
A lição
«Não quero dar uma de herói. Sou um mariquinhas de caca como qualquer ser humano nestas condições. Tenho medo, tenho pavor. Mas não vou andar aqui a choramingar».
E não choramingou.
sábado, 24 de julho de 2010
Ei-las
Aí estão as férias. Curtas, mas minhas.
Tudo o que quero:
o discreto rumor do estio.
vastidão.
sono sem a tirania do despertador.
leitura em silêncio.
trocar o eléctrico 28 pelo meu carro.
procurar o verde.
deitar a cabeça no colo materno.
O coração entre a doçura dos figos e as raízes dos girassóis.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
sábado, 12 de junho de 2010
Mi(ni)stério da defesa
Ele tinha um desejo: queria que a sua pele fosse palimpsesto; e ela copista do mais redivivo poema de amor. Ela fazia-o pestanejar ternura. Mas ele não conseguia deixar de olhar para ela e ver uma arma apontada à sua própria testa, ao seu próprio coração. Ele queria despir a armadura dos gestos, abrir o peito ao fogo disparado pela sua própria mão. Mas não conseguia.Queria premir o gatilho, estilhaçar aquilo em que se tinha tornado a sua vida: um mi(ni)stério da defesa. Queria abraçá-la, sem braço de ferro. Mas os pensamentos antecipavam-lhe o sabor a pólvora que escorreria do beijo que nunca deram.
Fugia do gatilho, em vão.
Ainda não se tinha apercebido de que a bala, já há muito, lhe navegava na corrente sanguínea.
Opinem
domingo, 6 de junho de 2010
Rasgão


Imagens do filme Anticristo, de Lars von Trier«um rasgão de luz sobre a pele, dormes na seiva doce
das manhãs.
mas sabes que só há repouso para o sofrimento
quando se entra no primeiro dia dos dias sem ninguém.
a dor, a perna amputada, a chaga viva, o sangue a latejar - o mapa da abissínia.
o sol enterra-se nas areias.
viajo, sem me mexer desta enxerga branca.
tento encontrar espaço para a lucidez do meu silêncio.
no lugar do poema coalha o ouro das geadas, e os
animais são formas etéreas que se me colam ao rosto.
o que morre, quase não faz falta...
dantes ouvia o mar...bastava encostar a cabeça ao peito um do outro.»
Al Berto, in Horto de Incêndio
Do encantamento
Os grandes ensinamentos são minimais.
domingo, 23 de maio de 2010
A mudança
domingo, 16 de maio de 2010
domingo, 9 de maio de 2010
A caminho

Então, começo a criar distância e fronteira…a caminho de mim. Primeiro, as frases começam a ser contidas. Viro egoísta, crio gavetas dentro das veias, para que as palavras sejam mais minhas, tão só minhas. Torno-me monossilábica. Depois o olhar retrai-se. Fujo da claridade dos olhos de quem me ama.
Ai, e o prazer que me dá ser honesta, quando ele me diz 'tenho saudades tuas'. E eu respondo 'eu também, eu também'. Nem imagina que é de mim que tenho saudades. Depois digo-lhe que estou a caminho de mim…e ele fica baralhado.
Quem sou? Quem sou? Como se fosse possível ser estanque, água sem torrente. Ele queria-me definida, arrumadinha. Queria-me igual, para o resto da vida. Queria apanhar-me como caçador de borboletas. E, com alfinetes, colocar-me na imobilidade. Estática como um dicionário.
Fico triste a olhar as fotografias. Quero estar viva. Abro a janela. E sou.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Mijinha abençoada

segunda-feira, 19 de abril de 2010
i não é que era fruta a mais?
Só quem não conhecer como funcionam, há anos, os títulos de imprensa regional, detidos pela Sojormedia, é que pode esboçar algum espanto.
Para este grupo económico que cresceu entre andaimes e cimento, os jornais regionais afiguraram-se como cavalos de Tróia que lhes permitiram ir estreitando contactos com o tecido empresarial e com o poder político de várias regiões, e isto naturalmente terá trazido proveito a outras áreas de negócio do grupo. Os jornalistas, para a Sojormedia, são uma chatice, uma despesa - é que nem disfarçam que é uma maçada os jornais não viverem apenas de anúncios de publicidade.
Para culminar, o Grupo Lena decidiu abrir os cordões à bolsa e investir 10,4 milhões de euros num jornal nacional. Eis, a cereja em cima do bolo, o apogeu do prestígio, a chegada à capital, o aproximar do centro de decisões do país. O peito ufano.
Mas o pedido de sacrifícios à equipa do i - que inclui cortes na despesa na fruta - viria mais cedo ou mais tarde. Nada a que os jornais regionais do grupo não estejam habituados, silenciosamente. Longe da atenção dos outros media e do Sindicato de Jornalistas.
sábado, 17 de abril de 2010
segunda-feira, 12 de abril de 2010
«Estavam falando do leite, eu gosto de falar dos que mamam»
domingo, 11 de abril de 2010
segunda-feira, 29 de março de 2010
homem parideiro
Estou com 38 anos e começo a perceber que a descendência significa largamente mais do que o quanto é evidente. Hoje sei que me faltam os filhos para um tipo de amor de que sou capaz e não tenho a quem deixar. Nesse sentido, posso pensar que desperdiço esse amor, deito-o fora, desimportante para outras coisas como seria fundamental para cuidar de um filho. Ando toda a vida a colocar, nos lugares daquilo que me falta, poemas e histórias com mais ou menos carochinhas. Ando a pôr poemas nos lugares vazios da casa, nas cadeiras onde outrora se sentavam pessoas, nos vasos secando pela minha progressiva ausência, maior, maior ausência, e ponho poemas ao meu lado, como gente falando e mexendo à espera que algo aconteça como milagre da palavra. Poemas crianças que brincam comigo e gostam de mim, aprendem a nutrir um amor incondicional por mim que me trará uma alegria a vida inteira e que me responsabiliza (...)»
valter hugo mãe (Jornal de Letras, 24 de Março a 6 de Abril de 2010)
domingo, 14 de março de 2010
terça-feira, 9 de março de 2010
Naufrágio
Há-de haver azul suficiente
para remarmos um até ao outro.
No poço do nosso corpo, o naufrágio da clepsidra.
domingo, 7 de março de 2010
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Fénix
[Do meu desassossego fez ninho]
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Àguas profundas
Ela observa-o a dar comida aos peixes do aquário. Os peixes observam os gestos do cuidador. Ele está de costas para ela, e revela-se em profundidade.
Ela - Os peixinhos são uns animais de estimação peculiares. Só olhas para eles, não há grande interacção. Deves gostar mais dos passarinhos, não?
Ele- Nem por isso.
Ela - É?
Ele - Com os peixes brincas a Deus e crias universos. E tentas dar bem-estar aos universos que crias.
[É no meio das conversas aparentemente banais que surgem as maiores revelações sobre o outro]
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
sábado, 23 de janeiro de 2010
V
Querida V., até breve.
domingo, 10 de janeiro de 2010
Sabotagem
Amanhece um imaculado caminho.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Jano

Tenho andado armada em procrastinadora. A mudança está perto e tenho evitado a hora de encaixotar o que vai povoar a minha nova vida. O corte de cabelo desenhou-se hoje. É verdade, eu encaixo no cliché: sou daquelas mulheres que sente ânsias de cortar o cabelo para assinalar uma mudança.
Amanhã não há como fugir. No último dia do ano, vou seleccionar os companheiros que me vão dar colinho no novo código postal. Num caixote irei depositar os livros que me irão mimar os neurónios longe do território familiar.
Tenho muita arrumação pela frente. Arrumações em várias frentes. Estou a caminho de cumprir o que tenho de ser. Estou mais perto de mim. Mas, durante uns tempos, vou ser descendente da mitologia romana. Vou sentir-me Jano. Ai vou, vou.
(Este post tem a ver com este outro, pois claro)
Conjugar-te
O Miguel Carvalho desafiou alguns bloggers a escreverem textos inspirados no tema «Ainda há futuros como antigamente?». Saiu-me isto:
Tu dás-me presente. E é isso que quero de ti. A tua presença, quando nos apetece. Contigo não me aprisiono nem ao sonho, nem à desilusão. Não quero que o futuro venha a correr, nem que o passado me agarre. Sabemos que o que temos é uma intermitência, uma doce fragilidade.
Preciso do parêntesis onde nos colocamos, desta barragem contra o futuro. Não falamos no vindouro, nem no passado. Deixamo-nos ir. Não esqueço as tuas mãos a taparem-me a boca, como quem diz: «Não metas filtros, silencia o teu censor, sente apenas. Sente-me». E eu deixo-me ir. Por não te esperar, por nada esperar de ti, tenho-te.
Amanhã vou surpreender-te. Falar-te-ei de futuro. Porque irei mudar, mudar-me. E vou continuar a querer presente e não melancolia ou ansiedade. Sei que a distância geográfica vai inibir-nos a espontaneidade. A lonjura vai fazer-nos pensar em futuro de tanto presente passado um com o outro. À distância resta-nos um caminho: um passo à frente ou um passo atrás. Vou antecipar-te e dar um passo atrás. Coisas de quem precisa de proteger o miocárdio (que seja).
Comigo longe, já não vais poder ligar-me a dizer que daí a 15 minutos vais passar por perto e que queres ser comigo. Os teus lábios não vão procurar os meus, ansiosos por um silente diálogo. Nem eu vou perguntar-te se estás pelo hospital e se podes descer até ao bar para um café nos tomar os gestos. Nem tu, de seguida, me convidarás para jantarmos juntos, dilatando a pausa no trabalho. Tu estás habituado a lidar com o presente. Interessa-te o aqui e agora do doente. Trazes contigo a urgência do agir. Sabes a exacta medida de um minuto, quando sais ao serviço do INEM. Estás habituado a ter vida entre as mãos. Por isso gosto tanto de sentir a palma da minha mão entregue à tua.
É perante o passado que eu ajoelho a minha vida. As escavações arqueológicas acendem-me o olhar. Tu gostas de mim assim, com pó nas veias e mãos na compreensão. Até já topaste o meu tique de, volta e meia, ao conversarmos ou ao caminharmos na rua, eu teimar em olhar para trás. Atribuis as minhas frequentes dores de barriga a uma congestão de passado. Lanças-me o teu humor: «Ó minha Cleópatra, lá estás tu com as tuas melan…cólicas!»
Amanhã. Amanhã, vou dar-te um abraço e sussurrarei aquela frase que sublinhaste no livro que tens na mesa de cabeceira: ‘Se jamais dois forem um, então nós’. Amanhã, irei atirar-te com o Antigo Egipto. Depositar-te-ei nas mãos aquele escaravelho de ouro que encontrei num antiquário, na rua onde, pela primeira vez, os nossos dedos se entrelaçaram como rede de pescar ternura.
Vou mentir-te. Vou dizer-te que te ofereço o escaravelho apenas por ser giro (ai como tu detestas esse adjectivo!). Vais ficar a olhar para o escaravelho, com a sobrancelha direita arqueada a censurar-me por ter gasto tanto dinheiro num objecto em ouro. Sei que a tua curiosidade irá chegar à simbologia.
Com o escaravelho irei pôr-te nas mãos a eternidade.
Agora, tão agora, sinto-me cobarde por não te conjugar no futuro.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
É Natal, época de solidariedade e tal
domingo, 20 de dezembro de 2009
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Coisas do demo
As universidades sempre foram lugares perigosos. E nós, por cá, estamos a atingir um nível elevado de perigosidade: foi criado um doutoramento em Democracia no Século XXI.
Sítio perigoso este o do questionar.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Indecência
Isto é indecente. Digo eu, filha de uma doente com cancro colo-rectal.
Não se podem esperar meses, quando o organismo dá sinal de alerta. A minha mãe não esperou. Foi à urgência hospitalar, mas como não apresentava sangue nas fezes não lhe foi feita uma colonoscopia. Não podia esperar meses, prostrada na cama com cólicas abdominais insuportáveis. Fui a uma clínica privada marcar a colonoscopia. Numa sexta-feira foi feita a biópsia. Na segunda-feira veio o resultado. E nesse mesmo dia o gastroenterologista, que trabalha para o privado, mas também no hospital público da área de residência, procedeu ao internamento da minha mãe. Na quinta-feira seguinte foi operada. Ainda havia alguma coisa a fazer. E se esperasse meses?
domingo, 6 de dezembro de 2009
O início
É um nicho no qual nos enroscamos? É um pedaço de universo sobre o qual reinamos? É um vago arranjo? Um contrato para dar remédio à solidão? É a descoberta de um lugar desconhecido? É a exploração de uma vida? É a procura de um duplo? De uma outra metade que um Deus amador de puzzles tivesse escondido? É uma aposta? A busca de uma unidade perdida? Datada de quando? Instaurada por quem? É um espelho? Uma recordação de infância? Uma ideia de felicidade? Um sonho? É uma doce inquietude? Uma paixão? A guerra? É uma ideia da perfeição? Pensamos nele ao morrer? É uma perdição? A negação de si? É um desespero? Uma religião? É o cumprimento de um programa? Genético? Cósmico? É a santidade? É uma maldição? Um corpo a estreitar? Uma alma a adivinhar? É um pedaço de espaço/tempo acelerado? Ou a paragem do tempo? Ou o fim do espaço? É uma equação a resolver? Uma dição de qualidades e de belezas? Uma antimatéria? Um mundo do avesso? Um aspirador de sentimentos? Um buraco negro do espaço? A outra face de uma galáxia? É um acaso? Um silício emotivo? Uma carícia que não tem fim? Um poema para viver? Um nascimento e uma morte misturados? O início da eternidade? Um labirinto? Um estratagema? Um enternecimento? É entrar na alma de alguém? Aí se dissolver? É o oceano que cabe todo na palma da mão?
Miléna não se interrogou acerca disto.
Adrien interrogou-se, sem encontrar resposta».
Yves Simon, in O Viajante Magnífico
Ronronice
A chuva, a ronronice domingueira, o ombro da minha mãe, a lareira. A tarde passada a ver a Anatomia de Grey. O chá a fumegar. E o amor, sempre o amor.
Ah, vidinha boa.
(eu disse boa, não disse fácil)











