domingo, 22 de março de 2009

Olhar com comprimento, altura, profundidade e milagre

Imagem de William Charpe


«Theodor fora ensinado pelo pai, Thomas Busbeck, que a inteligência era um índice do movimento do olhar. Se fizermos o cálculo, dizia Thomas Busbeck, da velocidade dos olhos dirigindo-se às coisas para as perceber, velocidade média durante um ano, teremos o valor da inteligência dessa pessoa, e tal bastará para adquirirmos uma ideia bastante precisa acerca da produção intelectual desse indivíduo. O mais breve encontro entre dois seres que não se conheçam bastará - se existir uma observação atenta do olhar do outro - para se captar a aptidão intelectual de cada um, mesmo que um e outro não troquem palavra. O que cada um diz não é suficiente: pode ser apenas boa memória - costumava afirmar o velho Thomas Busbeck - , se queres escolher um colaborador fecha os ouvidos e está atento aos olhos dele, à forma como eles se mexem: no fundo, ao modo como eles se atiram às coisas, como vêem um objecto e o rodeiam, como entram nele e depois saem ou ficam. O trajecto dos olhos no mundo dá o trajecto da inteligência
[Gonçalo M. Tavares, in Jerusalém]




«- Quando alguém procura - respondeu Siddhartha - pode acontecer que os seus olhos vejam apenas a coisa que ele procura, que não permitam que ele a encontre por que ele pensa sempre e apenas naquilo que procura, porque ele tem um objectivo, porque está possuído por este objectivo. Procurar significa ter um objectivo. Mas encontrar significa ser livre, manter-se aberto, não ter objectivos. Tu, Venerável, és talvez um homem à procura, pois, perseguindo o teu objectivo, muitas vezes não vês aquilo que está perante os teus olhos».

[Herman Hesse, in Siddhartha]


P.S. O título foi inspirado num poema de Gonçalo M. Tavares.

2 comentários:

Robin K disse...

Por vezes vê-se melhor de olhos fechados. O olhar chega mais longe e mais fundo.


Robin K

luís nunes nunes disse...

grande livro esse. e bom também descobrir este espaço.