domingo, 18 de janeiro de 2009

A Falha

Imagem de Sabina Dimitriu


Tobias protegia-a dela mesma, mas não do mundo. Só agora ela se apercebia disso. A dor que ele lhe infligia, defendia-a dos seus próprios desejos destrutivos. Ele destruía, destruía-se. Espeta-dor. Ela asssistia, triste. Espectador. Mas os papéis estavam definidos. Ela era a boa menina, ele o vilão.

Tobias ardia-se todo; a pele incandescente, os olhos em cinza. As palavras a escapulirem-se, lebres com febres de feno. Para ela continuar a ser uma boa menina, ele era sombra, transgressão, silêncio. O rosto dele foi-se cobrindo de barba: jardim em sufoco, a erva daninha. O cabelo, hera distendida pelo canteiro. Ela quis ser jardineira. Ele não quis ser toxicodependente. Falharam os dois.

2 comentários:

Joana disse...

O que não nos mata torna-nos mais fortes, não é verdade? Há que entender o sentido daquilo que nos vai acontecendo na vida. Tu rapidamente percebeste que esse episódio só podia mesmo falhar. Bjs

raquel disse...

Sim, miguita, com esse episódio cairam por terra as ilusões românticas de que o amor tudo consegue. Há sete anos, essa falha fez-me perceber que o amor de um não basta para curar a falta de amor próprio do outro. Fez-me perceber muita coisa, inclusivé que mora em mim uma costela de madre teresa de calcutá :)