quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Dicionário da sobrevivência

(Imagem retirada da net)


Kathmandu. Trânsito indigesto, buzinas a fazerem a vez de piscas. Rotundas, a desorientada poluição. Pobreza de mão estendida. Agorafobia. A vontade de recolher ao quarto de hotel, para dar descanso aos sentidos. O Budismo tinha de surgir assim: no meio de tanto metro quadrado de gente. A meditação é uma estratégia de sobrevivência.
Cremações públicas, máquinas fotográficas arregaladas. Corpos enrolados em lençóis ardem à beira do rio. O rio não chora os mortos, enxuga as emoções e segue em frente, sempre em frente. A dignidade do movimento contínuo das águas. As cinzas a misturarem-se com o lado abjecto dos hábitos humanos. Estações de tratamento de águas residuais inexistem por ali. Nada que dissuada a meninice de refrescar o corpo na imundície liquefeita.
Na rua, duas existências cruzam-se. Uma menina pedincha atenção, pede «a book, a book». Não quer rupia, quer conhecimento. Não quer sonho, nem a candura dos contos infantis. Ignora que haja cor-de-rosa (nem imagina que exista uma coisa apelidada de imprensa cor-de-rosa). A menina quer um dicionário de nepalês/inglês. Conhecer a língua inglesa é o sonho pragmático a que a menina aspira. Quer um dicionário, para melhor pedir. O turista faz-lhe a vontade, vai a um quiosque e alimenta-lhe a sobrevivência.

1 comentário:

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Soube-me bem fazer a "digestão" deste post que me levou a um país onde gostei muito de estar, apesar das contardições que encontrei. E aquel nascer do sol em Pokara, é das imagens mais fascinantes que guardo duma vida de andarilho