quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Despudor

Imagem de Katia Chausheva


Já estava familiarizada com a presença física de Silvina, quando decidi ir morar com ela no apartamento do namorado dela. Tinha coabitado com Silvina numa residência particular [não universitária] só para mulheres. Éramos umas 20 raparigas com um ponto em comum: a Universidade do Minho. Todas estudantes, uma delas professora universitária. De Silvina nunca retive mais que a superfície. Partilhávamos as horas do jantar, alguns minutos na cozinha, cruzávamo-nos na casa de banho, convivíamos na sala de estudo, trocávamos algumas impressões. No meu quarto só entrava quem eu queria. E eu não a queria lá. Não me lembro de partilhar intimidades com Silvina. Não me imagino a carpir mágoas no colo dela. Nítida ausência de empatia.

Silvina, com os seus longos cabelos alourados, baixa estatura e ar vulgar, nunca me caiu no goto. Há coisas que são mais da ordem do intuitivo do que da ordem do palpável, e Silvina sempre teve um ar demasiado vulgar para o meu gosto, qualquer coisa de ordinário se escondia por detrás daquela personalidade empinada. Não que eu tivesse presenciado, nessa altura, algum acto despudorado. Mas há coisas que se sabem sem a luz do olhar.

Os primeiros tempos na casa do namorado de Silvina foram vividos com satisfação. Éramos três [eu, Silvina e Marisa] a viver num confortável T3. Nós as três conhecíamo-nos da residência, sendo que eu era amiga da Marisa, o que tornava mais solarenga a convivência. O namorado de Silvina residia numa aldeia, nas redondezas de Braga, e era raro ir ao apartamento. Por isso, Silvina acabava por ser, na prática, a dona da casa. Era ela quem recebia o dinheiro da renda.

Com o contacto diário, percebi que Silvina encaixava, cada vez mais, nas minhas ideias pré-feitas. Comecei a não achar muita piada a determinadas situações, como utilizar o meu secador de cabelo, estragá-lo e nem se prontificar para o mandar arranjar; ou ir ao frigorífico comer dos meus víveres e não repor. Mas o cúmulo do abuso foi eu ter entrado no quarto dela e ver no chão um par de cuecas minhas. Olhei uma, duas, três vezes. E ali estava, como despojo íntimo, um par de cuecas minhas, usado por ela. Os meus maxilares descaíram até ao umbigo. [nunca toquei no assunto, tão enojada que fiquei com esta forçada partilha de intimidade; ela que ficasse com as cuecas]

Mas o cúmulo dos cúmulos ainda estava para chegar. E chegou, na altura do Enterro da Gata [Queima das Fitas, nas outras academias]. Chegou e era espanhol. O namorado à distância de alguns quilómetros. E a cama ali tão perto. Eu e a Marisa percebemos que Silvina tinha levado um gajo qualquer para o apartamento e nem ousámos sair, cada uma do seu quarto. Eu e a Marisa queríamos evitar o embaraço. Não o nosso, mas o dela. Silvina, com o maior despudor, levou o gajo espanhol para o quarto onde ela dormia com o namorado, no apartamento do namorado. E lá passaram a noite, com bom vento. De manhã, o jovem partiu. Colocou-se um lençol sobre o assunto.

Não me recordo se ouvi gemidos. Só me lembro do meu queixo novamente descaído até ao umbigo. Sempre me quis parecer que o namoro de Silvina era um óptimo negócio. Pragmática, a gaja. O dinheiro que ela poupou em renda. Silvina só falhou na escolha de curso: em vez de engenharia de sistemas e informática, devia ter escolhido economia.

7 comentários:

Sininho disse...

Confesso que fiquei de boca aberta..há pessoal que não se manca mesmo...jinhos

ivan disse...

só conheceste uma assim?

dos meus tempo de universidade, aproveitei algumas amizades (feitas por contactos com amigos anteriores ), a liberdade de sair e fazer asneiras. de resto, acho que o grosso que encontrei foi gente desse nível, com esse tipo de ambição. detestei. espero que agora voltar lá para acabar o inacabado aos 30 me permita manter a distância suficiente para fazer o que me proponho: estudar.

ivan disse...

"...espero que agora, ao voltar..."

ivan disse...

se soubesses os amigos de curso que tive por ser irmão do professor do cadeirão e por ter computador em casa...

ou os amigos que apareceram quando tirei um 16 a uma cadeira que toda a gente chumbou.

(acabei por ser um puto ingénuo inadaptado à realidade de a vida é uma selva



(a palavra do verificador é SHINE)

Brilha!

Robin K disse...

Gestão também ficava bem à Silvina...

raquel disse...

Sininho, pois é, há pessoal assim, há :)

Ivan, felizmente daquele calibre não conheci muitas :)

Se és irmão do professor do cadeirão, imagino que, em teu redor, gravitassem mesmo muitas abelhinhas e abelhudos lol

É à UM que vais voltar?


Robin K, bons olhos te leiam :)

Andas a sacudir o pó às ideias?

ivan disse...

vou, se me derem reingresso e transferencia de curso.

(mudar das ciencias para as letras é lixado, mas tento na mesma)