«O título do livro pensara nele enquanto olhava fixamente para a montra de uma pastelaria cheia de porquinhos de maçapão. Há já algum tempo que eu andava interessada na questão do canibalismo simbólico.Na altura, eram os bolos de casamento, encimados pelos seus noivos de açúcar, que muito em particular me fascinavam», Margaret Atwood
quinta-feira, 5 de julho de 2012
sábado, 9 de junho de 2012
quinta-feira, 19 de abril de 2012
terça-feira, 17 de abril de 2012
domingo, 1 de abril de 2012
sábado, 10 de março de 2012
Shame
Hoje à tarde vi o filme «Shame», de Michael Fassbender. Fez-me lembrar a poesia de Luís Miguel Nava.
O Abismo
Com a sua pele de poço, pele comprometida com o
medo que no fundo fede e a que, digamos, toda ela adere
de uma forma resoluta, dir-se-ia que se engancha, se pen-
dura, o branco da memória a alastrar pelo corpo, um bran-
co tão branco como o das noites em branco e sobre o qual
a idade, exorbitada, hiante, se insinua, pensos, ligaduras,
impregnados de memória, uma memória onde fulgura a
lava dos sentidos que entram em actividade e lhe dis-
putam os dias idos, assim ergue a balança, onde sustém
o abismo.
Luís Miguel Nava, in Vulcão II -Poesia Completa
quinta-feira, 1 de março de 2012
sábado, 25 de fevereiro de 2012
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Vertigem
Queria ver a imensidão do mundo.
Subiu alto, muito alto, e muitas vezes - deixou de ver a maçã a ruborescer.
Um dia veio a vertigem: só então percebeu a diferença entre subir e crescer
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Da (im)preparação para a morte
Mas desumano não é morrer num hospital. Desumano é morrer sem amor. O amor não surge espontaneamente, sem semente, no aproximar da morte. O amor é um projecto de vida. Ou cativamos os outros - e o seu amor - ao longo da vida ou não se espere que ele nasça nas horas que antecedem a agonia.
E não se ama menos por deixar que um dos nossos morra numa cama de hospital. Haverá quem abandone os seus à vida, e à morte. Há quem arrede a velhice, colocando-a em lares. Há quem se arrede da velhice, entregando os seus à solidão. Há quem não queira saber dos seus velhos da mesma forma que não quiseram saber deles enquanto novos. Há quem não queira saber dos seus velhos porque nunca existiram laços profundos, para além daqueles que o sangue impõe. Há quem não queira saber dos seus velhos porque estes nunca foram flor que se cheire. Há quem não saiba amar. Há quem não saiba tornar-se amado. A velhice só torna a falta de amor mais dramática.
A minha experiência fala-me de amor. Na minha família não se deixou morrer ninguém ao desamparo. E eu nasci rodeada de avós e bisavós. O que significa que já perdi muitos dos meus. Alguns muito precocemente: a minha avó materna, a minha mãe. Muitos dos meus morreram em ambiente hospitalar. Se morressem em casa não teria sido melhor, nem menos doloroso. A morte nunca é fácil, nem nunca se está preparado. Não há manuais que nos valham. Não há soluções ideais para a morte porque a vida não é perfeita. E por isso não o é também no capítulo final.
Há pouco menos de cinco anos, a minha família levou com um murro no estômago chamado cancro colorrectal T4. Um tumor T4 é uma morte anunciada. A expectativa médica era que a minha mãe vivesse apenas um ano, dois no máximo. Após o diagnóstico, viveu quatro anos e meio, cinco operações, 40 e muitas sessões de quimioterapia, uma ostomia, duas nefrostomias.
A minha mãe sabia que no hospital seria tratada da melhor forma possível, pela equipa do doutor Leitão. E foi. Foi acarinhada por todos e teve, tivemos, a sorte de ela poder ficar num quarto individual. A nutricionista foi visitá-la para lhe perguntar o que queria comer. E comeu, de facto, aquilo que lhe apetecia. Até o arroz de feijão. Foi mimada, tanto quanto alguém podia ser. E não teve dores. De certa forma, despediu-se de nós, enquanto ainda tinha capacidades para isso. Depois, o depois, não há como evitá-lo. A dor de ver quem se ama em agonia. Não há como fugir dela. Morre-se sempre só porque há uma altura em que a comunicação deixa de ser possível. Mesmo que continuemos a falar com quem estamos prestes a ver partir.
Nos últimos dias de vida da minha mãe, os nossos passos em direcção ao hospital deixaram de ser entusiastas e passámos a ter passos arrastados, como se o peso no peito colasse os pés ao chão. Víamos no olhar dos enfermeiros a tristeza, a tristeza de verem partir uma mulher que lutou tanto e com a qual foram criando amizade, ao longo dos anos. A minha mãe sentia-se em casa, ali, no Hospital S. Teotónio. Ela chegou a dizê-lo. Por isso quis morrer ali, sem dores, sem sofrimento físico. Quis também preservar-nos de a vermos morrer com dores. Sei-o.
Todos sabíamos que ela ia morrer. Tentei preparar-me. Cheguei a comprar, por recomendação de um amigo médico, o livro «Acolher a morte», de Elizabeth Kübler-Ross. Hesitei em trazer o livro da Fnac, como se o livro me queimasse as mãos, como se o simples facto de comprar aquele livro fosse um sinal de que eu tinha assumido a derrota. Comecei a lê-lo só pouco tempo antes da morte da minha mãe. Desisti. Nunca estamos preparados para aceitar a morte de quem se ama. Nunca. Por muito que a morte seja expectável, por muito que se sinta que se disse e mostrou o quanto se ama o outro.
Aliviou saber quais os recados que a minha mãe deixou com uma grande amiga. E saber que mesmo sem recado, nós teríamos feito exactamente o que a minha mãe queria: ser velada em casa; ser enterrada na campa da mãe dela. E saber que ela quis que nós soubéssemos que foi muito feliz com os filhos que teve e tem; e com o marido que teve e tem.
O amor não desaparece com a morte.
domingo, 29 de janeiro de 2012
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Respira acção
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
domingo, 22 de janeiro de 2012
Desfolhar
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Um fosso nem sempre é uma falha
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Da inutilidade das palavras
domingo, 16 de outubro de 2011
sábado, 15 de outubro de 2011
sábado, 17 de setembro de 2011
Luto
terça-feira, 16 de agosto de 2011
sexta-feira, 22 de julho de 2011
A tua vida é que é uma ilha, não tu
Aviso à navegação: O que abaixo se segue foi descaradamente furtado no There's only 1 alice.

«Às vezes não te compreendo bem.» «Sou uma ilha pequena, Paula.» Sim, uma ilha pequena, sem arquipélago, e à volta o oceano desconhecido e um nevoeiro tão denso que não deixava ver os barcos, se os havia. Mas era natural que os houvesse. Há sempre barcos em volta das ilhas. Estivera um dia numa ilha assim… A voz de Paula ria na sua sala, no seu divã. «Todos o somos, não és original.» «Mas eu sou aquela ilha.» Pequena e com praias de cascalho, não muito belas, e voltadas para oriente. O sol abandonava-as a meio da tarde e então fazia frio e a água ainda há pouco morna e confortável tornava-se gélida, matéria opaca, cheia de vida, de morte e de mistérios. Só havia uma coisa a fazer, subir, subir à procura de um resto de sol. Mas do lado ocidental era o reino das gaivotas e dos rochedos a pique. Coisas só para olhar. Ruídos que eram silêncio. E acabava sempre por regressar à tenda onde estava acampada com uns amigos. Cansada. Farta. A querer ir-se embora e sem partir. «Mas a tua vida é que é uma ilha, não tu.» «Sim, a minha vida», concordou Jô. «Mas o que sou eu sem a minha vida, o que somos nós sem ela?» «Bem, é tarde, vou deitar-me», disse Paula. «E o teu caso, na mesma?»
Maria Judite de Carvalho
quinta-feira, 5 de maio de 2011
segunda-feira, 25 de abril de 2011
domingo, 24 de abril de 2011
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Dias de tempestade
Faz hoje uma semana que o meu avô paterno morreu, no hospital. Faz amanhã uma semana que o meu avô foi a enterrar. Nem eu, nem a minha mãe fomos ao funeral. Havia que cuidar dos vivos.
Enquanto decorriam as cerimónias fúnebres, a minha mãe estava a fazer quimioterapia e eu a acompanhá-la. Aí está um novo ciclo de tratamento. Até agora, a minha mãe já fez 44 sessões de quimioterapia. Quarenta e quatro. Entre as 9h00 e as 18h30 estivemos no hospital de dia. Durante aquelas horas foi entrando dentro de mim o olhar desesperado de uma outra doente oncológica. Cancro do pulmão. Enquanto fazia quimio, a senhora, de cabelo curto, recém-nascido, falou das noites mal dormidas, do sofrimento. Mas não precisava de dizer nada. Os olhos mostravam o que as palavras nunca teriam coragem de expressar: medo da morte, cansaço de lutar. Olhos que choram para dentro.
Este novo ciclo de quimio, está a ser o mais duro até agora. Cansaço extremo, vómitos, diarreia, mal-estar, cólicas, sonolência. Ontem tivemos de ir para a urgência. Enquanto a minha mãe estava a soro, na maca, procurei temporariamente descanso numa cadeira. Calhou sentar-me à porta do consultório de psiquiatria. Sai um homem de uma consulta e senta-se ao meu lado. Mete conversa. Pergunta-me se estou para a consulta de psiquiatria. Digo-lhe que não, que sou acompanhante de uma doente. Ele explica-me que se fosse doente psiquiátrica que mais valia bater à porta para falar com a doutora, que ela está de saída da urgência. Depois, começou a contar que sofria de depressão há dez anos. Nas mãos um saco plástico cheiinho de embalagens de medicamentos. Disse-me que percebia que «o copinho de leite» tivesse feito o que fez. Só com o desenrolar da conversa é que percebi que «o copinho de leite» a que se referia era o Renato Seabra.
«Sempre fui um homem calmo. Estou casado há 25 anos e por isso estás a ver que tenho um ambiente familiar estável. E, no outro dia, dei comigo com as mãos no pescoço da minha mulher, a esganá-la. E eu não me lembro de nada, devo ter tido algum lapso», desabafou ele comigo, uma desconhecida. O acto de violência não ficou pela mulher. Mais tarde, violentou a filha, no rosto. Sem encontrar justificação, nem ter memória do episódio. Ficou estupefacto quando viu sangue espalhado pelo chão e hematomas no rosto da filha.
O desespero nem sempre sobe ao olhar. Os olhos deste homem, de 49 anos, eram baços, vazios. A angústia colou-se toda às palavras. Aquele homem sabe que já se perdeu da vida e tem medo dele próprio, daí ter procurado ajuda médica. Não é a morte dele que o inquieta, é a possibilidade de, fora de si, tirar a vida ao Outro. Lucidamente, confessou-me: «Eu preferia ser internado a um dia ir parar a uma prisão».
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Vermelho nascente
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Porta aberta
domingo, 5 de dezembro de 2010
Solar
E, por isso, fui ter contigo, à tua secretária, e dei-te um beijo na face espantada.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
As minhas paredes até sorriam
«You make my heart sing»(e sim, não é a primeira vez que falo nestas duas delicadezas)
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Quando é que se põem a andar, hein?
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Amar o casamento
«O casamento feliz não é nem um contrato nem uma relação. Relações temos nós com toda a gente. É uma criação. É criado por duas pessoas que se amam.
O nosso casamento é um filho. É um filho inteiramente dependente de nós. Se nós nos separarmos, ele morre. Mas não deixa de ser uma terceira entidade.
Quando esse filho é amado por ambos os casados - que cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro. Têm também de amar o casamento que criaram.
O nosso casamento é uma cultura secreta de hábitos, métodos e sistemas de comunicação. Todos foram criados do zero, a partir do material do eu e do tu originais».
Excerto de uma crónica de Miguel Esteves Cardoso, publicada no Público. E lida aqui, na íntegra.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Dúvida
Estamos confiantes acerca de quem somos. Se nos perguntarem, sabemos descrever de imediato o nosso estado actual. Eu sei as minhas respostas para muitas perguntas, tal como vocês. Como era seu pai? Acredita em Deus? Quem é o seu melhor amigo? O que quer? As vossas respostas são a vossa topografia actual que parece ser permanente, mas que é enganadora. Porque debaixo dessa face de respostas fáceis, existe um outro Eu. E esse Ser sem palavras move-se como se move o instante que passa; pressiona para vir à superfície sem qualquer explicação, fluído e sem palavras, até que a consciência que resiste, não tem outra alternativa senão ceder.
É a Dúvida (vivida muitas vezes no início como fraqueza) que faz as coisas mudar. Quando um homem se sente inseguro, quando vacila, quando um saber arduamente conquistado se evapora diante dos seus olhos, é quando está no limiar do crescimento. A reconciliação, subtil ou violenta, da pessoa exterior com o seu íntimo parece muitas vezes, no início, um erro, como se avançássemos na direcção errada e nos perdêssemos.Mas isso não é senão a emoção que anseia pelo que lhe é familiar. A vida acontece quando o poder tectónico da nossa alma silenciosa irrompe através dos hábitos estagnados da nossa mente. A Dúvida não é mais do que uma oportunidade de reentrar no Presente. (...)
A Dúvida requer mais coragem do que a convicção, e mais energia; porque a convicção é um lugar de repouso e a dúvida é infinita - é um exercício apaixonado».
Abro a gaveta onde fui guardando, ao longo de anos, bilhetes de espectáculos e folhas de sala. À cabeça aparece a folha de sala do espéctaculo «Dúvida», uma parábola de John Patrick Shanley, com encenação de Ana Luísa Guimarães e interpretações de Eunice Muñoz, Diogo Infante, Isabel Abreu e Lucília Raimundo. Vi o espectáculo com um grupo de amigos e amigos de amigos nos finais de Janeiro de 2008.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
domingo, 26 de setembro de 2010
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Dentro
Viver
A lição
«Não quero dar uma de herói. Sou um mariquinhas de caca como qualquer ser humano nestas condições. Tenho medo, tenho pavor. Mas não vou andar aqui a choramingar».
E não choramingou.
sábado, 24 de julho de 2010
Ei-las
Aí estão as férias. Curtas, mas minhas.
Tudo o que quero:
o discreto rumor do estio.
vastidão.
sono sem a tirania do despertador.
leitura em silêncio.
trocar o eléctrico 28 pelo meu carro.
procurar o verde.
deitar a cabeça no colo materno.
O coração entre a doçura dos figos e as raízes dos girassóis.



























