São 592.064 portugueses, do território continental, a pensar como eles.
«O título do livro pensara nele enquanto olhava fixamente para a montra de uma pastelaria cheia de porquinhos de maçapão. Há já algum tempo que eu andava interessada na questão do canibalismo simbólico.Na altura, eram os bolos de casamento, encimados pelos seus noivos de açúcar, que muito em particular me fascinavam», Margaret Atwood
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Do mistério
A alma de um escritor é um mistério. Lemos e não nos iludamos: nunca encontramos a revelação. As palavras não revelam. Lançam novos véus.
A interrogação, uma bengala permanente, à qual nos seguramos para não admitirmos que não queremos todas as respostas, mas todas as ilusões.
A interrogação, uma bengala permanente, à qual nos seguramos para não admitirmos que não queremos todas as respostas, mas todas as ilusões.
«Violaste a lei do distanciamento estético. Sentimentalizaste a experiência estética com essa rapariga: personificaste-a, sentimentalizaste-a e perdeste a noção do distanciamento essencial para o teu gozo. E sabes quando isso aconteceu? Na noite em que ela tirou o tampão. O distanciamento estético necessário desmoronou-se, não enquanto a vias sangrar - isso esteve bem, foi bom -, mas quando não pudeste conter-te e te ajoelhaste. E que diabo te levou a isso? O que existe atrás da comédia de essa rapariga cubana levar um tipo como tu, o professor do desejo, ao tapete? Beber o sangue dela? Eu diria que isso constituiu o abandono de uma posição crítica independente, Dave. Adora-me, diz ela, adora o mistério da deusa a sangrar, e tu obedeceste. Nada te faz deter. Lambes o sangue. Consome-lo. Digere-lo. Ela penetra-te, a ti. O que virá a seguir, David? Um copo da urina dela? Quanto tempo decorrerá antes de suplicares pelas suas fezes? Eu não sou contra isso por ser anti-higiénico. Não sou contra isso por ser repugnante. Sou contra isso porque é apaixonar-se. A única obsessão que toda a gente quer: "amor". As pessoas pensam que ao amar se tornam inteiras, completas? A união platónica das almas? Eu não penso assim. Penso que estamos inteiros antes de começarmos. E o amor fractura-nos. Estás inteiro e depois estás fracturado, aberto. Ela foi um corpo estranho introduzido na tua totalidade. E durante ano e meio lutaste para o incorporar. Mas nunca serás inteiro enquanto não o expelires. Ou te livras dele ou o incorporas através da autodeformação. E foi isso que fizeste e te levou à loucura».
Philip Roth, in O Animal Moribundo
Philip Roth, in O Animal Moribundo
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Alma a alma
«Cada ser é capaz de todas as perguntas e de todas as respostas. Escorre todas as tintas e possui todas as cores, e só por hábito adquirido há séculos é que conseguimos olharmo-nos cara a cara, quanto mais alma a alma. (...)
Um ser diante de outro ser - um mistério diante de outro mistério. (...)»
Raul Brandão, in Húmus
Um ser diante de outro ser - um mistério diante de outro mistério. (...)»
Raul Brandão, in Húmus
domingo, 20 de setembro de 2009
A propósito do caso das 'escutas'

«(..) o timing é um ponto relevantíssimo: se interessava tanto à fonte que tal e-mail fosse divulgado precisamente agora, em meio da campanha eleitoral (quando é certo que ele datava já de Abril de 2008…), o jornal devia interrogar-se sobre isso e questionar-se sobre se não estaria, porventura, a ser instrumentalizado por alguém com intenções não jornalísticas. O timing, portanto, não foi definido pelo jornal — mas pela fonte que lhe passou os documentos. E dizer que as notícias não podem esperar (sobretudo quando são notícias que nos são ‘dadas’ por alguém num momento muito específico) releva de uma ingenuidade que não tem lugar neste mundo complexo…»
Joaquim Fidalgo
(via Jornalismo & Comunicação)
Joaquim Fidalgo
(via Jornalismo & Comunicação)
Cebrián dixit
«Desde que me iniciei nesta profissão acreditei firmemente que a única forma de garantir a independência de um diário é assegurando a sua rentabilidade. Não digo que esta seja uma condição suficiente para isso, mas sim que é necessária. Um diário financiado por subvenções - sejam públicas ou privadas, de signo empresarial ou político - dificilmente pode assumir-se como independente. Naturalmente que uma concepção assim implica a assunção de que o jornal não é só um negócio, mas que o deve também ser se quer ser um bom jornal. De facto, estes dois conceitos - bom jornal e bom negócio - vão com frequência unidos. A mim isso não me repugna em absoluto e devo esclarecer-te que também não me parece nenhuma claudicação especial do nosso ofício. Já estou a ouvir os teus protestos a falarem-me da liberdade de expressão e do direito à informação como privilégios constitucionais de todos os cidadãos, mas para nada empalidecerem essas asserções pelo facto de implicarem também um interesse mercantil no assunto. O ensino ou a saúde, para dar outros exemplos, estão igualmente garantidos pela Constituição e são a base de um sem-fim de negócios nos quais o lucro é o motor evidente e principal. Desqualificar o jornalismo pelos seus aspectos comerciais - «só querem vender mais e por isso publicam o que publicam» - é uma atitude bastante estúpida. É evidente que há publicistas irresponsáveis e profissionais mafiosos que antepõem o benefício económico a qualquer outra consideração, mas esta não tem porque ser a norma. Temos de nos esforçar por defender uma visão ética do capitalismo (...)».
Juan Luis Cebrián, in Cartas a um jovem jornalista
(Editorial Bizâncio, Lisboa, 1998)
Juan Luis Cebrián, in Cartas a um jovem jornalista
(Editorial Bizâncio, Lisboa, 1998)
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Rédeas
Imagem de Pavel MorozovDeixaram de esperar príncipes encantados. Até elas chegam os cavalos brancos, sem o peso dos contos de fado. O dorso equídeo pede que sejam elas a reinventar a história. Elas agarram as rédeas, hesitantes. A lucidez a queimar os gestos. A languidez no olhar. Passaram a preferir que eles cheguem a pé, de passo firme, sem aparato cinematográfico. Mais rentes à vida, sem pedestais.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Higiene mental
Quando uma pessoa perdeu o brio pelo sítio onde vive é porque deixou acreditar que é possível arejar a alma. O espaço habitado como reflexo de uma paisagem interior devastada. A falta de higiene, numa pessoa sem limitações físicas, nunca é apenas falta de higiene. É falta de esperança. Não se combate a pobreza dando uma casa, sabão ou uma vassoura, mas alimentando um projecto de vida.
Vejam o dramático. A força anímica não chegou para que os braços limpassem a casa , as queixas dos vizinhos não serviram de abanão. Eis que o tribunal determina uma medida coerciva: o despejo. E perante isto, a mulher agarra-se à ideia de que o vereador da autarquia vai ajudá-la a permanecer na casa. A mulher não fala em higienizar a vida.E ninguém pode substitui-la nesse desígnio.
Vejam o dramático. A força anímica não chegou para que os braços limpassem a casa , as queixas dos vizinhos não serviram de abanão. Eis que o tribunal determina uma medida coerciva: o despejo. E perante isto, a mulher agarra-se à ideia de que o vereador da autarquia vai ajudá-la a permanecer na casa. A mulher não fala em higienizar a vida.E ninguém pode substitui-la nesse desígnio.
Literatura infantil no divã

No livro Tigger on the Couch – The neuroses, psychoses, disorders and maladies of our favorite childhood characters, Laura James identifica as perturbações mentais que afectam algumas personagens dos clássicos da literatura para a infância. Carla Maia de Almeida, no seu belo Jardim Assombrado, enumera alguns dos exemplos:
Rainha de Copas – narcisismo
Chapeleiro Louco e Lebre de Março – psicopatia partilhada (folie à deux)
Winnie-the-Pooh – défice de atenção e hiperactividade
Piglet – ansiedade crónica
Willy Wonka – desordem esquizotípica
Peter Pan – narcisismo, autofrustração e dependência
Wendy – dependência
Sininho – personalidade do tipo borderline
Capitão Gancho – personalidade antisocial
Feiticeiro de Oz – narcisismo
Homem-de-Lata – desordem esquizóide
Gata Borralheira– necessidade de aprovação
Barba-Azul – psicopatia
Peter Rabbit – hiperactividade
Bela – dependência
Monstro – agressividade
Cruella de Vil – personalidade histriónica
Lobo Mau – psicopatia
Pipi das Meias Altas – desordem de personalidade não especificada
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
domingo, 6 de setembro de 2009
Uma questão de perfume
- Ó mimi, quando é que me arranjas um padrinho?
- Ó Dinis, um padrinho não se arranja assim de repente...
- Para arranjares um namorado, fazes isto: despejas um frasco de perfume em ti. Depois vais ter com ele. Ele desmaia, pegas nele e espetas-lhe um beijo.
- E devo ser eu a espetar-lhe um beijo? Não espero que seja ele a dar-mo?
- Ó mimi, os rapazes são tímidos!
- E as raparigas não são?
- Os rapazes são mais tímidos!
- E com o beijo resolvia-se tudo?
- Depois, faziam amizade, combinavam um jantar. Depois, trazia-lo para casa, sem a tua mãe saber, e dizias-lhe: Quero namorar contigo.
- E achas que ele iria dizer logo que sim?
- Se disser que não, dás-lhe uma chapada na cara. Mas achas que ele não vai aceitar?! Só tens de deitar o frasco todo de perfume.
(Diálogo entre a mulher comestível e o Dinis, de 9 anos)
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Lavadeiras

O lavar de roupa suja começa agora a estar mais equilibrado. Por muito que se queira o conforto das dicotomias, o inferno não são só os outros: os políticos que nos governam. E nem os jornalistas são anjos seráficos.
Lembro-me sempre das aulas de jornalismo em que se sublinhava que a verdade é um espelho que caiu ao chão e se dividiu em pequenos estilhaços. Ao jornalista cabe a tarefa de juntar o maior número de pedaços de vidro. O jornalista não é o dono da verdade; se assim se sentir, correrá o risco de se cortar com a lâmina da arrogância.
Que haja limpeza e transparência nos dois campos: política e jornalismo. Venha o azul, o sabão azul e não o lápis.
Lembro-me sempre das aulas de jornalismo em que se sublinhava que a verdade é um espelho que caiu ao chão e se dividiu em pequenos estilhaços. Ao jornalista cabe a tarefa de juntar o maior número de pedaços de vidro. O jornalista não é o dono da verdade; se assim se sentir, correrá o risco de se cortar com a lâmina da arrogância.
Que haja limpeza e transparência nos dois campos: política e jornalismo. Venha o azul, o sabão azul e não o lápis.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Esfera
Ontem um berlinde de vidro motivou o Alexandre a fazer uma Ode a Heráclito. Anteontem, o A_gosto fez-me chegar a casa com um saco de berlindes. Encantatórios. O dono da Casa da Boneca - loja de brinquedos de Viseu, que faz parte do imaginário infantil dos viseenses da minha idade - ofereceu, a cada um dos participantes, um saco com esféricas memórias. A Casa da Boneca está prestes a fechar. E na cidade deixará de haver igual loja, com caixas de jogos já envelhecidas pelo tempo, com brinquedos que hoje já não se podem designar por brinquedos, com restos de uma infância que já era.
Lembro-me do violeiro, que disse que, «quando somos jovens, temos muitas arestas mentais» e que, com a passagem do tempo, «tudo na vida tende a ficar esférico».
Para os nostálgicos, deixo uma sugestão: Mistério Juvenil.
Lembro-me do violeiro, que disse que, «quando somos jovens, temos muitas arestas mentais» e que, com a passagem do tempo, «tudo na vida tende a ficar esférico».
Para os nostálgicos, deixo uma sugestão: Mistério Juvenil.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Ética, pá!
Uma amiga, jornalista desempregada, recusou um convite para ser assessora de imprensa numa das distritais de um partido. Pensou em aceitar porque precisa de fazer pela vida. Mas o estômago começou a remoer, na hora em que reuniu para acertar os valores da remuneração, e começou a ouvir falar mal de jornalistas que denunciaram situações que envolviam figuras do partido. Nem quis saber se a estrutura partidária aceitava os valores pedidos por ela. Ligou a recusar o convite. E dormiu mais descansada naquela noite. Mais descansada e a sentir que o nome dela estava limpo do lamaçal político que se avizinha. Sabe que pode ter desperdiçado a possibilidade de arranjar um "tacho" no partido ou em alguma autarquia, mas também sabe que iria ser profundamente infeliz a trabalhar no seio da política.
Quando vejo políticos a desfazerem-se em simpatia com os jornalistas que trabalham na área política e, com laivos de má educação, a ignorarem os outros, os que não lhes dão jeito, começo a sentir alguma urticária.E questiono-me sobre quem é que essas figuras da política querem iludir quando soltam larachas como "há falta de ética na vida política" ou" precisamos de ter princípios e valores e darmo-nos ao respeito, para sermos respeitados". É que não há paciência para discursos de embalar bebés. Principalmente quando, diante de 100 jovens com ambições políticas, tanto defendem a ética como, logo de seguida, anuem com o recurso à "cunha". Porreiro, pá.
Quando vejo políticos a desfazerem-se em simpatia com os jornalistas que trabalham na área política e, com laivos de má educação, a ignorarem os outros, os que não lhes dão jeito, começo a sentir alguma urticária.E questiono-me sobre quem é que essas figuras da política querem iludir quando soltam larachas como "há falta de ética na vida política" ou" precisamos de ter princípios e valores e darmo-nos ao respeito, para sermos respeitados". É que não há paciência para discursos de embalar bebés. Principalmente quando, diante de 100 jovens com ambições políticas, tanto defendem a ética como, logo de seguida, anuem com o recurso à "cunha". Porreiro, pá.
Eu cá prefiro ouvir Gay Talese.
(Podem chamar-me lírica, que não me importo)
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
A_gosto


E se tivessem uma cápsula do tempo onde pudessem depositar um objecto simbólico e, daqui por cinco anos, voltassem a resgatá-lo? Que memórias seriam acordadas? O que o olhar encontraria no objecto e em nós próprios?
Quem achar piada à ideia, pode entrar nesta experiência até dia 29 de Agosto, em Viseu.
O A_gosto da cidade vai para além da cápsula do tempo. A associação cultural Amarelo Silvestre e o Projecto Património -Empório juntaram-se para reflectir Viseu. No sábado, dia 29, vai haver piquenique no Parque Aquilino Ribeiro, conversas saborosas, passeio a pé pelo centro histórico e uma dissertação sobre lugares e não-lugares.
Eu andarei por lá. Porque as boas ideias dos bons amigos são para ser acompanhadas. Bem de perto.
Quem achar piada à ideia, pode entrar nesta experiência até dia 29 de Agosto, em Viseu.
O A_gosto da cidade vai para além da cápsula do tempo. A associação cultural Amarelo Silvestre e o Projecto Património -Empório juntaram-se para reflectir Viseu. No sábado, dia 29, vai haver piquenique no Parque Aquilino Ribeiro, conversas saborosas, passeio a pé pelo centro histórico e uma dissertação sobre lugares e não-lugares.
Eu andarei por lá. Porque as boas ideias dos bons amigos são para ser acompanhadas. Bem de perto.
sábado, 22 de agosto de 2009
Falésias, falácias
"O mundo é hoje, para os nossos contemporâneos das cidades, um parque temático. Anulámos todos os sensores. Alguém, a quem pagámos num contrato social paradoxalmente sem propinas, estudou e anulou os perigos. Alguém vigia. Deitamo-nos debaixo das arribas. Penduramos as toalhas na sinalética de aviso. Ruiu a falésia. Vem o Pai, o Tutor e os prefeitos. E o responsável do Parque de Diversões. E essa gente do Estado menos Estado. Quarenta carros, quatrocentos homens. Amanhã instalaremos sinalética adequada, de maiores dimensões. Depois, em acção punitiva, derrubaremos a arriba assassina. E em breve todas as arribas e todas as falésias".
Eu não o diria melhor que A Natureza do Mal.
Eu não o diria melhor que A Natureza do Mal.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Firmeza
De um homem uma mulher espera firmeza. Firmeza de carácter, de ideias, de atitudes. Firmeza no abraço. Quando a mulher sente firmeza, ama mais. Ama melhor. Quando sente firmeza, fica formosa e segura. E amará para além do amor.
E
ternidade.
De como o dicionário deveria ter duas versões: feminina e masculina
Ela queixa-se de que ele tem pouca firmeza. Ele, de sobrolho carregado, vai com a mão à braguilha e pergunta-lhe se ela se queixa de falta de erecção.
[uma amiga jura-me que isto lhe aconteceu]
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Barragem
A semana começou comigo no meio da paz, com os olhos postos no Dão, e não nas cavernas de Vieira do Minho. Em termos de trabalho, a semana prometia ser calminha. E, de repente, tudo muda.
Não vou stressar, não vou stressar, não vou stressar. Missão: seis trabalhos em cinco dias. Não vou stressar, não vou stressar, não vou stressar. Seis trabalhos ainda por definir na íntegra. Não vou STRESSAR! (ups,até já uso pontos de exclamação, ai que vou ser excomungada)
Mas aquilo que queria mesmo partilhar era a beleza da Barragem da Aguieira. E tenho dito.
Não vou stressar, não vou stressar, não vou stressar. Missão: seis trabalhos em cinco dias. Não vou stressar, não vou stressar, não vou stressar. Seis trabalhos ainda por definir na íntegra. Não vou STRESSAR! (ups,até já uso pontos de exclamação, ai que vou ser excomungada)
Mas aquilo que queria mesmo partilhar era a beleza da Barragem da Aguieira. E tenho dito.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Mobilidade
1. O que é então o medo?
O Medo é a sensação provocada pela proximidade do Outro
2. Como pode acabar o medo?
Eliminando o Outro ou afastando-o
3. Mas é o Outro que nos muda
4. Sem o Outro (vento, homens, mulheres, animais, coisas) eu permaneço imóvel e igual
5. Como o tempo prossegue, permanecer imóvel é avançar na direcção desagradável. Não mudar não é ser imortal, é envelhecer.
6. Aproveita, então o medo para mudar; seguindo a direcção desejada (...)
Magnífico excerto de "O Outro (II)", em "O Senhor Swedenborg e as investigações geométricas". de Gonçalo M. Tavares
(via Teatro Anatómico)
O Medo é a sensação provocada pela proximidade do Outro
2. Como pode acabar o medo?
Eliminando o Outro ou afastando-o
3. Mas é o Outro que nos muda
4. Sem o Outro (vento, homens, mulheres, animais, coisas) eu permaneço imóvel e igual
5. Como o tempo prossegue, permanecer imóvel é avançar na direcção desagradável. Não mudar não é ser imortal, é envelhecer.
6. Aproveita, então o medo para mudar; seguindo a direcção desejada (...)
Magnífico excerto de "O Outro (II)", em "O Senhor Swedenborg e as investigações geométricas". de Gonçalo M. Tavares
(via Teatro Anatómico)
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
O penedo e o pneu
Foi algures por aqui, no Minho, bem no meio do mato, no Penedo da Cereja, que dei hoje uma queda monumental. Eu até me riria da situação, não fosse a insistente dor no cóccix. Depois de me doer o osso, rebentar um pneu numa área de serviço não foi coisa para me fazer doer a alma.
Resumo do dia: Grata me confesso por conhecer gente boa que, de cócoras e mãos sujas, troca o pneu a uma desconhecida. Queridos homens, nisto de trocar pneus, sou muito gaja. E não me orgulho. Nas aulas de condução, deveria ser obrigatório ensinar a usar o macaco e outras macaquices necessárias à troca de pneus.
P.S. Tenho mais um episódio de gente boa, mas fica para depois. Toda eu (cóccix incluído) preciso urgentemente de descanso.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
terça-feira, 28 de julho de 2009
Ide a Braga, ide
Ora aqui está uma boa notícia, para quem, em Agosto, queira ir a Braga passar umas férias «low cost». A crise económica traz boas ideias. Tiro o tricórnio à Universidade do Minho.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Destroço





Imagens do filme Dolls, de Takeshi KitanoTempo de destecer,
recolher
e voltar ao novelo.
Já foi tempo.
Já passou tempo.
Agora os meus olhos são do mundo
e não teus.
E sei que o mundo está além dos contornos
delimitados pela lava
da tua boca, do teu corpo, da tua palavra vã.
Os meus olhos estão acima das nuvens,
abaixo das raízes,
junto ao húmus.
Tu estás algures,
esbatido, numa moldura de cores polares.
Estás n’ O Mar de Gelo, de Caspar Friedrich.
recolher
e voltar ao novelo.
Já foi tempo.
Já passou tempo.
Agora os meus olhos são do mundo
e não teus.
E sei que o mundo está além dos contornos
delimitados pela lava
da tua boca, do teu corpo, da tua palavra vã.
Os meus olhos estão acima das nuvens,
abaixo das raízes,
junto ao húmus.
Tu estás algures,
esbatido, numa moldura de cores polares.
Estás n’ O Mar de Gelo, de Caspar Friedrich.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Aterros sanitários
Anda por aí tanto cérebro português a funcionar como aterro sanitário, que até cheira mal. Primeiro, ouvimos um poço de inteligência a queixar-se que tem «brasileiros na cave só a fazer merda». Depois, há um outro mar de sapiência a dizer que «os pretos fazem muito mais porcaria que os brancos». Digam lá se isto não soa a invejite aguda de portuga com problemas de obstipação?
(Via Corta-Fitas)
domingo, 19 de julho de 2009
Acima e dentro
Primeiro, ofereci a uma amiga «A Espuma dos Dias», de Boris Vian. Agora, emprestei-lhe »A Ordem Alfabética», de Juan José Millás.
Comentário dela, no MSN, após terminar a leitura do livro do Millás: «Tu andaste a ler estes livros surreais na adolescência e depois ficaste "complicadinha". Livra, que não me arranjas um livro em que as personagens vivam felizes para sempre! Este agora foi viver para dentro de uma enciclopédia, eh eh eh».
Começo a levar a sério essa coisa de me dizerem que sou "complicadinha". E só posso anuir com a ideia de que há livros que, quando lidos muito cedo na nossa vida, nos afastam de pessoas, de carne e osso, planas. Começamos a viver com muitas personagens dentro, ainda que esquecidas e apropriadas pela corrente sanguínea. A nossa personalidade vai crescendo em profundidade. A banalidade entedia-nos. A literatura passa a correr-nos no sangue e esperamos dos outros nada menos que uma densidade literária. Passamos a ler os outros, como quem lê um livro. A metafísica abraça-nos.
De cada vez que sangramos, há personagens que choram connosco as mágoas. De cada vez que amamos, queremos inevitavelmente a metáfora, mas mais ainda o abraço, o beijo, o olhar. E a palavra. Tudo bem real, como a pele ou o papel ou o sonhar acordado.
Mais do que me afastar das coisas simples da vida, a literatura ter-me-à preparado para as coisas complicadas deste mundo.
Comentário dela, no MSN, após terminar a leitura do livro do Millás: «Tu andaste a ler estes livros surreais na adolescência e depois ficaste "complicadinha". Livra, que não me arranjas um livro em que as personagens vivam felizes para sempre! Este agora foi viver para dentro de uma enciclopédia, eh eh eh».
Começo a levar a sério essa coisa de me dizerem que sou "complicadinha". E só posso anuir com a ideia de que há livros que, quando lidos muito cedo na nossa vida, nos afastam de pessoas, de carne e osso, planas. Começamos a viver com muitas personagens dentro, ainda que esquecidas e apropriadas pela corrente sanguínea. A nossa personalidade vai crescendo em profundidade. A banalidade entedia-nos. A literatura passa a correr-nos no sangue e esperamos dos outros nada menos que uma densidade literária. Passamos a ler os outros, como quem lê um livro. A metafísica abraça-nos.
De cada vez que sangramos, há personagens que choram connosco as mágoas. De cada vez que amamos, queremos inevitavelmente a metáfora, mas mais ainda o abraço, o beijo, o olhar. E a palavra. Tudo bem real, como a pele ou o papel ou o sonhar acordado.
Mais do que me afastar das coisas simples da vida, a literatura ter-me-à preparado para as coisas complicadas deste mundo.
Dúvida higiénica
Alguém que me explique, por favor: qual a diferença entre, durante a distribuição da comunhão, um sacerdote dar a hóstia na boca dos fiéis ou colocar a hóstia na mão dos mesmos, se ambas as situações acarretam algum risco de contaminação? Que eu saiba a mãozinha do padre não escorrega pela garganta abaixo e deposita a hóstia directamente no estômago, pois não? Para quê, então, fazer passar a hóstia por duas mãos antes desta descer pela goela? É que vejo uma humana (e abençoada pelo Santíssimo) falta de higiene em qualquer um dos casos (basta haver toque da mão do padre com a do fiel ou basta o fiel ter dado um aperto de mão a alguém com Gripe A, antes de comungar). Lá que me dissessem que a hóstia ia passar a ser depositada na mão dos fiéis com algum utensílio tipo tenaz (igualmente um método falível) ou que as hóstias passariam a ser distribuídas em saquetas individuais, ainda perceberia...agora assim, não entendo não. Mas deve ser o calor a fritar-me os neurónios.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Voo
«Com os meus amigos aprendi que o que dói às aves
Não é o serem atingidas, mas que,
uma vez atingidas,
O caçador não repare na sua queda.»
Daniel Faria
Não é o serem atingidas, mas que,
uma vez atingidas,
O caçador não repare na sua queda.»
Daniel Faria
quinta-feira, 16 de julho de 2009
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Douradices

Tenho cá para mim que as cerejas de Resende, lavadas num fontanário público de Lamego, e comidas compulsivamente a caminho da Régua, deviam ter alguma substância psicoactiva. Primeiro foi o pezinho de dança suscitado pela escuta de um tema "franksinatriano". Depois, as metáforas nascidas nas cabecinhas de quatro almas que se abeiraram da barragem do Pinhão, a observar a abertura das comportas, para a passagem dos barcos. Isto é o que se chama de verdadeiras douradices (tradução: tolices inspiradas pelo Douro).
terça-feira, 14 de julho de 2009
sábado, 11 de julho de 2009
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Emparedados



Em «Home - Lar Doce Lar», de Ursula Meier, os rails de uma auto-estrada funcionam como objecto simbólico (falível) da separação das águas públicas/movimento/anonimato e das águas privadas/quietude/identidade. Viver ao lado de uma auto-estrada (ainda que com as obras paradas durante mais de uma década) representa, para esta família, um modo de isolamento. Não há ali cruzamentos, nem passadeiras; há marginalidade.
No filme, uma mulher emparedada antes de o ser literalmente, ao jeito das freiras que seguiam uma ordem religiosa de clausura extrema e eram confinadas, para toda a vida, a um pequeno espaço com quatro paredes. O rádio, o ponto de contacto desta mulher com a vida fora do reduto familiar. Uma filha que se fecha dentro de si mesmo, outra que se quer abrir ao mundo. Um miúdo à descoberta do que é ser mundo, no mundo. O caos exterior exacerba o caos interior. A resistência. A solidão, dos dois lados dos rails.
Este filme faz-me regressar ao livro «Não-Lugares: Introdução a uma antropologia da sobremodernidade», de Marc Augé. Este antropólogo francês define não-lugar como um lugar que não é relacional, nem identitário, nem histórico. Exemplos disso são as auto-estradas, os aeroportos ou as grandes superfícies comerciais.
«O que é significativo na experiência do não-lugar, é a sua força de atracção, inversamente proporcional à atracção territorial, ao peso do lugar e da tradição. Testemunhas desse facto são a precipitação dos automobilistas para as estradas, aos fins-de-semana ou nas férias, as dificuldades dos controladores da navegação aérea em dominar o engarrafamento das vias aéreas, o êxito das novas formas de distribuição. (...) Se os imigrantes provocam, nas pessoas instaladas, uma inquietação tão forte (e frequentemente tão abstracta), é provavelmente, e em primeiro lugar, porque lhes demonstram a relatividade das certezas inscritas no solo: é o emigrado que, na personagem do imigrado, os inquieta e fascina ao mesmo tempo».
No filme, uma mulher emparedada antes de o ser literalmente, ao jeito das freiras que seguiam uma ordem religiosa de clausura extrema e eram confinadas, para toda a vida, a um pequeno espaço com quatro paredes. O rádio, o ponto de contacto desta mulher com a vida fora do reduto familiar. Uma filha que se fecha dentro de si mesmo, outra que se quer abrir ao mundo. Um miúdo à descoberta do que é ser mundo, no mundo. O caos exterior exacerba o caos interior. A resistência. A solidão, dos dois lados dos rails.
Este filme faz-me regressar ao livro «Não-Lugares: Introdução a uma antropologia da sobremodernidade», de Marc Augé. Este antropólogo francês define não-lugar como um lugar que não é relacional, nem identitário, nem histórico. Exemplos disso são as auto-estradas, os aeroportos ou as grandes superfícies comerciais.
«O que é significativo na experiência do não-lugar, é a sua força de atracção, inversamente proporcional à atracção territorial, ao peso do lugar e da tradição. Testemunhas desse facto são a precipitação dos automobilistas para as estradas, aos fins-de-semana ou nas férias, as dificuldades dos controladores da navegação aérea em dominar o engarrafamento das vias aéreas, o êxito das novas formas de distribuição. (...) Se os imigrantes provocam, nas pessoas instaladas, uma inquietação tão forte (e frequentemente tão abstracta), é provavelmente, e em primeiro lugar, porque lhes demonstram a relatividade das certezas inscritas no solo: é o emigrado que, na personagem do imigrado, os inquieta e fascina ao mesmo tempo».
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Trilogia da tortura
Este é um post sobre como dois dias passados fora de casa podem deixar alguém sem dar uma passada. Sai uma pessoa com uns confortáveis mocassins calçados, mas um pontapé na rua, faz com que os ditos sapatos fiquem inutilizáveis. Digamos que foi por uma unha negra que não apareci num encontro de trabalho com os dedinhos do pé esquerdo a sorrirem para a senhora dona entrevistada.
O segundo trabalho da tarde estava à minha espera. Rapidamente passo por uma sapataria, para solucionar o meu problema. Eis que a pressa, aliada a uma valente falha dos neurónios, fazem-me comprar uns sapatos que são um escadote (não, não ia entrevistar deus ou os anjos ou arcanjos).
No dia seguinte, como não tinha levado mais nenhum par de sapatos, lá volto a calçar as torres amarelas. Aí vou eu, de metro, direitinha à baixa do Porto, para passar uma manhã a passear. Tortura. Engulo as dores a cada passo. Não tenho alternativa. Volto às sapatarias. Escolho umas sandálias baixinhas, baixinhas. Durante algum tempo, sinto-me no céu. Mas o mal já lá estava. O terceiro trabalho era só às 17h30. Almoço na Casa da Música, a que se segue sessão de cinema no Bom Sucesso e, por fim, o encontro ao final da tarde.
Não, não vou mostrar-vos os meus calcanhares. Posso só dizer que acho que nunca fiz tão rápido o trajecto Porto/casa. Acelerar doeu, se doeu.
Já vos falei dos meus calcanhares, não falei?
O segundo trabalho da tarde estava à minha espera. Rapidamente passo por uma sapataria, para solucionar o meu problema. Eis que a pressa, aliada a uma valente falha dos neurónios, fazem-me comprar uns sapatos que são um escadote (não, não ia entrevistar deus ou os anjos ou arcanjos).
No dia seguinte, como não tinha levado mais nenhum par de sapatos, lá volto a calçar as torres amarelas. Aí vou eu, de metro, direitinha à baixa do Porto, para passar uma manhã a passear. Tortura. Engulo as dores a cada passo. Não tenho alternativa. Volto às sapatarias. Escolho umas sandálias baixinhas, baixinhas. Durante algum tempo, sinto-me no céu. Mas o mal já lá estava. O terceiro trabalho era só às 17h30. Almoço na Casa da Música, a que se segue sessão de cinema no Bom Sucesso e, por fim, o encontro ao final da tarde.
Não, não vou mostrar-vos os meus calcanhares. Posso só dizer que acho que nunca fiz tão rápido o trajecto Porto/casa. Acelerar doeu, se doeu.
Já vos falei dos meus calcanhares, não falei?
sexta-feira, 3 de julho de 2009
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