Em absoluto acordo. «Eu Espero...», de Davide Cali e Serge Bloch, estará entre os melhores livros de 2008. Eu não lhe resisti. O essencial da vida pode contar-se em pouco, com muito espaço em branco a rodear as palavras, com muito espaço em branco para deixar crescer a ternura. [O meu trevo de quatro folhas está guardado no meio das páginas deste livro]«O título do livro pensara nele enquanto olhava fixamente para a montra de uma pastelaria cheia de porquinhos de maçapão. Há já algum tempo que eu andava interessada na questão do canibalismo simbólico.Na altura, eram os bolos de casamento, encimados pelos seus noivos de açúcar, que muito em particular me fascinavam», Margaret Atwood
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Seguir o fio vermelho
Em absoluto acordo. «Eu Espero...», de Davide Cali e Serge Bloch, estará entre os melhores livros de 2008. Eu não lhe resisti. O essencial da vida pode contar-se em pouco, com muito espaço em branco a rodear as palavras, com muito espaço em branco para deixar crescer a ternura. [O meu trevo de quatro folhas está guardado no meio das páginas deste livro]quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Doucement
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
Longe do Paraíso
Os postais de Boas Festas da família Keil Amaral são sempre uma surpresa. Partilho aqui o talento bem-humorado da dupla Lira/Pitum. Um postal inspirado na crise económica.No canto superior esquerdo da imagem, estão desenhadas as figuras de Lira e Pitum. Dizem eles:
-Olha! É a expulsão do Paraíso!
- Outra vez? Coitados!
No canto inferior esquerdo está escrito: «Saúde, muita amizade e...que não seja esse o vosso caso. São os votos para 2009 da Lira e do Pitum». E são também os meus.
As folgas da menina
Imagem de Tina Bakerdomingo, 28 de dezembro de 2008
Sou toda ouvidos
Dois vídeos, a cor passional. Con Toda Palabra, de Lhasa de Sela; e Where The Wild Roses Grow, Nick Cave & Kylie Minogue.
sábado, 27 de dezembro de 2008
Sem pés: o peso ou a leveza?
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
Tempo de desembrulhar
Imagem de Berenika BerenikaTempo de desembrulhar o que somos, de nos semearmos em campos de carne e osso. Dar, darmo-nos. Atear fogueiras, o crepitar de conversas. Os gestos a criarem raízes. Resgatar o que de nós cheira a infância. A melancolia polvilhada de canela e frutos secos. No virar da esquina do mês, a transição para a continuidade. Uma folha em branco para distendermos o corpo, as vontades, os desejos, os sonhos. Embalar o olhar, respirar como um bebé e dar à luz uma inabalável confiança na vida.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Conversa de pedra
Imagem de Maury Perseval(Dizem que ontem)
Os olhares eram de granito
De granito era a própria pedra
(Trouxeram pedra para o peito do menino)
De granito eram as palavras
Que se trocavam ao preço das moedas
Aos balcões de granito se vendia
(E o granito crescia no menino)
Junto à muralha uma mulher de mão ao vento
Parecia acenar a cada barco
E chamava um nome de menino
(Ontem)
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Cinzas
Paris em tumulto. Matthew e os gémeos Theo e Isabelle, do filme «Os Sonhadores», de Bernardo Bertolucci, podiam andar por estes dias em Atenas...com as suas contradições em revolução, com a utopia a rondar as pálpebras, com a inocência a arder. A cinza. Uma casa, com cortinas, com vista para o Maio de 1968.
Na noite passada, sonhei com um homem que estava sentado [intacto, na aparência], em ambiente fabril. Talvez resignado. Estátua com respiração. Levanta-se. A revelação. O homem ardia por dentro. Desfaz-se em cinza, no momento de ascensão.
Neste sonho cabemos todos. Todos podemos ser o homem em cinzas, nestes tempos de crise mundial. Neste sonho, vejo Atenas, vejo Lisboa, vejo um espelho, o mundo. Febril. Utopia com código de barras.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Casa-ilha

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Depois de anoitecer
Espelho, espelho. Mora em mim uma Céline...
Fui a Céline de «Antes de Amanhecer», nos anos 90, sem InterRail, com viagens interiores intermináveis. Sinto-me a Céline de «Antes do Anoitecer», à beira de uns quantos desencantos, com olhar condescendente, apesar. Em nove anos, as personagens 'adulteceram'. A lucidez estilhaçou algumas ilusões românticas, mas a conversa, sempre a conversa.
Sou emotiva, sismógrafo de carne e alma, como Céline. Um corpo não me basta. Lugares comuns não me bastam. O amor é um lugar, incomum, feito de estímulo intelectual e abraço. A conversa, sempre a conversa, a pedir a quebra das fronteiras de pele. Sedução. Inteligência. Sensibilidade.
Preciso de ideias a circular de cá para lá, de lá para cá. Tudo misturado, com o coração descompassado pelo meio. Sempre no meio, uma ponte em arritmia, dois corpos. São sempre dois, cheios de gente dentro. Polinização.
Emotiva me confesso. Mas, como me disse uma amiga, talvez seja também mais racional do que julgo. Com isto não sei se me revelo mais do que me oculto.
E depois de anoitecer, quanta claridade?
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Corações ao alto
«O Desejo é alto, é o que não se toca, queremos TOCAR.
O Prazer é baixo, é o que se TOCA
Uma definição rápida?
O Desejo é uma Prateleira do Céu.
Outra definição?
O Céu é uma prateleira de deus.
Outra ainda?
deus é uma prateleira do homem.
Uma correcção?
deus pode ser uma prateleira do homem.
uma indicação final?
O início.
a alma?
a indicação final.
Coreografias?
ocupar espaço antes dele nos ocupar.
O amor?
não respondo à Ciência, não sou capaz.
O amor?
a ciência a grande Ciência.»
Gonçalo M. Tavares, in Livro da Dança
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Sou toda ouvidos
A Rumba dos Inadaptados, do Quinteto Tati, com o senhor trovador JP Simões...
«eu vivo da esperança da vaga mudança que nunca vai acontecer».
Ah, foi demitida por ter razão
Foto de Pedro FerreiraA sorte de Pedro Lapa não será idêntica à de Dalila Rodrigues [até porque o ministro mudou]. Mas é irónico ver como é tudo uma questão de gestão do silêncio. Dalila Rodrigues revelou inabilidade política: falou antes do tempo. Tiro-lhe o chapéu por ter seguido os ponteiros das suas convicções.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
A imaginação hospitalizada

«Quando uma criança não lê, a imaginação desaparece». É este o mote da campanha 'La Lecture en Cadeau', promovida pela Fundação para a Alfabetização do Canadá e idealizada pela agência Bleublancrouge design, com fotografias de Alain Desjean. Quando a Cinderela e o Peter Pan estão hospitalizados, somos nós todos que estamos a adoecer. O Capuchinho Vermelho ainda estará vivo? O vídeo pode ser visto aqui, no blog da editora Bruaá.domingo, 7 de dezembro de 2008
Sou toda ouvidos
Há uns anitos, poucos, esta era a música das noites de fecho de edição do semanário onde trabalhei [vá, não era coisa de mulheres naquela altura do mês, não]. Agora, com um olhar distanciado, aquelas noites parecem-me mais tragicómicas, que trágicas. Rebekah del Rio, possuída pelo tema 'Llorando', no inquietante Mulholland Drive, de David Lynch. Sofrimento sim, mas com sentido estético.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Sou toda ouvidos
Fechar os olhos e embalar os sentidos, ouvindo o tema 'Raquel' (by Bau) do filme "Fala com Ela", de Pedro Almodóvar. O meu nome ganhou uma bela sonoridade.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Hei-de...
Negro Exterior, de Helena Almeidasábado, 29 de novembro de 2008
Vida a preço de saldos
Crucificação, de Francis Bacon (1965)Deve ser a isto que chamam de espírito natalício. Duzentas pessoas cheias de fé nos saldos. Carne a correr, quilos e quilos de carne a correr. O espezinhamento dos valores éticos. Uma morte oficial. Causa do óbito: consumismo.
[Os outros, os da multidão, já estão mortos, mas ainda não sabem].
O tempo devolve
Imagem de Berenika BerenikaE depois detém-te a olhar o fruto, crescendo devagar,
nas tardes que demoram até ao verão. Que te seja redondo,
ao côncavo da mão, e nele reconheças o gosto e o perfume
mesmo antes de tocar-lhe; morde-o longamente com os olhos –
é neles que a polpa faz mais sede e a pele transpira
com o fulgor da cera. E não consintas vento, nem abelhas,
nem que nele repousem outros olhos, muito mais pequenos,
como os que trazem as aves voltando do Inverno. Deixa
o teu nome no pomar durante a noite – há mãos que nunca
dormem e a espera pode tornar os frutos ociosos.
Mas para mais ninguém este se avoluma, à tua boca prometido.
Embala-o então com a verdade antes de partires.
Cerca-o com os teus olhos. Mostra-lhe os dedos
que irás um dia confiar-lhe.
e tenro, doce, à espessura dos lábios.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Dreams make my heart sing
Psst, psst, se algum ser muitooooooo sensível estiver com uma vontade irresistível de me colocar um sorriso hiperbólico no rosto, basta ir aqui e oferecer-me uma destas duas belezas: «You Make my Heart Sing» ou «Dreams are my reality». Serigrafias mais que perfeitas, de Ana Ventura. sexta-feira, 21 de novembro de 2008
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
"Sigure" a alma
Música para lembrar que o Belo existe. Onde entra Sigur Rós é contar com a alma revirada do avesso.
domingo, 9 de novembro de 2008
Se isto não é amor
Imagem de Urszula Kluz-KnopekHoje, deixou de caminhar. E o corpo descarnado tornou-se pesado demais para duas mulheres o conseguirem mover até ao quarto de banho, até ao quarto. Não cerrou os olhos durante a tarde. Abriu as portas à demência. «Tens o cabelo a arder», disse-me hoje ao almoço. Olhava para mim e via nos meus cabelos carreiros de lume. Apeteceu-me dizer-lhe que podia ter ideias em brasa dentro da cabeça e sonhos em combustão, mas que os cabelos não, não ardiam. Calei-me, a conter a tristeza.
Fui educada para o amor, não para a paixão. E o amor de que fui rodeada é fogo que arde e se vê, vê, vê. O que são os gestos da minha mãe, senão calor que acolhe e cuida? E as pacientes conversas do meu pai com o meu bisavô não serão fogueiras atentas? Há 20 anos que a minha mãe cuida do avô. Não serão muitas as mulheres a cuidar de avós. Perdidos os pais, restou o avô para cuidar. Família de filhos únicos. Somos poucos e dos poucos ainda menos.
A minha mãe é admirável [por tanta coisa que não quero expor aqui]. Ontem, fez 52 anos. Merecia mais de presente que um avô acamado.
Hoje, eu e a minha mãe tirámos forças de onde não as tínhamos para conseguirmos pegar no meu bisavô. Mas o peso que senti no coração foi bem maior que o esforço físico. Ver a minha mãe a sentir-se impotente para ajudar o meu bisavô [um rasgão aberto cá dentro]. A minha mãe sem saber se havia de cuidar dela ou dele. Para não o deixar cair, a minha mãe a esquecer a osteoporose, a minha mãe a ignorar que tem cancro e que ainda em Setembro terminou mais um ciclo de quimioterapia. Se isto não é amor, não sei o que será.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Mão aberta
Imagem de Pascal Renoux terça-feira, 4 de novembro de 2008
Título de cauda longa
Ó valha-me Santa Tecla, ké ké isto? O Público (ver pág 15, na edição de 04/11/2008) anda a ver se entra no Guiness Book, na categoria «O maior título do mundo», ai anda, anda. Chega uma pessoa estafada até menino e depois reza para que o menino não tenha quatro anos e meio (que sempre se poupam uns caracteres) e depois ainda tem de ganhar fôlego para chegar até à mãe. Ufa!
Eu faria melhor e juntava a família toda no título: Avô recusa entregar neto à filha por suspeita de que o menino de quatro anos estará em perigo junto da mãe e do padrasto
Mas também não ficava mal, não senhor, colocar: Avô recusa entregar neto à filha por suspeita de que o menino de quatro anos estará em perigo junto da mãe e do padrasto que são ambos toxicodepentes e traficantes de estupefacientes
Quem disse que no jornalismo era diferente?
«O mecanismo da "cunha", ou seja, o recurso a conhecimentos que se têm com pessoas dentro da profissão, "é o modo de acesso mais frequente" à carreira de jornalista» (Público, 04/11/2008)
Nãaaaaaaaao, isso é só má língua. É coisa de quem anda demasiado atento ao meio jornalístico (como os investigadores do ISCTE), coisa de quem não tem distracções na vida.
sábado, 1 de novembro de 2008
Sete palmos acima
Troco o cheiro doentio das velas a arder e os olhares de soslaio de quem faz do cemitério uma feira de vivas vaidades, pela nostalgia caseira. Os meus mortos estão todos cá dentro, bem dentrinho, fora do espaço rectangular de uma sepultura. Sem terra, mármore e flores de pétalas cabisbaixas. Sete palmos acima dos vermes. Sete palmos acima dos pingos de cera.
Recordo o sorriso da avó Nair, recordo-o de cada vez que me olho ao espelho a sorrir. Lembro o sabor da rabanadas, da torta com doce, dos biscoitos, que das mãos dela saiam. Depois dela partir, não mais me entusiasmaram as rabanadas. Lembro-me do avô António, da vida sofrida no amparo de duas muletas, do corpo possante que minguou, das brincadeiras do 'serubico tico tico', do carro de bois, lento, a percorrer a calçada de paralelos e o pinhal.
Do bisavô António recordo o bigode que picava, a meiguice e de como toda a criançada gostava dele. Lembro a bisavó Aldina e da partida inconsequente que lhe fiz, levando-a a cair no chão [desculpa,vó]. Lembro-me da pequenina e magra ti' Encarnação, da falta de dentes, do toque das mãos finas e com artroses, da longevidade [chegou aos 96 anos]. Recordo o tio Almeida, a perda de peso equivalente à perda de memória. Alzheimer a torná-lo sombra do homem que fora. Lembro o último dia em que o vi, dei-lhe a mão e foi tão bom ouvi-lo dizer o meu nome e recordar-se da minha profissão.
E recordo a mana gémea que nunca conheci senão dentro barriga da mamã. A partilha do aconchego uterino durante sete meses. Depois, o vazio. A separação prematura. Ela nem chegou a chorar. Por escassos minutos apenas, respirou este mundo. Eu fiquei cá para um dia lhe contar o que é isto de viver. [Sinto falta de te conhecer, mana; muitas vezes dei comigo com vontade de ter um espelho à minha frente, um espelho de carne e osso, sabes?]
Convoco "Ponette", de Jacques Doillon, esse filme que me arranca o coração e o coloca no lugar exacto do outro. Um dilacerante poema visual sobre a perda. O ensinamento de como a tristeza nos deve acordar para a vida.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Espantar os corvos do trigal
O post anterior pede-me luz, «Cinema Paraíso», música de Ennio Morricone, para contrariar, para espantar os corvos do trigal.
Suicida sobrevivente
Imagem de Omid N. h.Pum, pum. Duplo homicídio. Quatro crianças a escurecerem, a tiritarem, sob os cobertores. São suficientes, os cobertores, mas a noite tornou-se polar, sem que eles percebessem porquê. Pum, pum. A palidez da lua, a orfandade.
Diz-se crime passional e não se percebe. Não se percebe nunca. Passional. Espanto, da lembrança, o «Pasión» do Rodrigo Leão, que não é para aqui chamado. Procuro o dicionário, que é objecto de arrumar ideias. Confirmo que é relativo a paixão, susceptível de paixão.
E que é isso de paixão? Tenho tantas dúvidas, sou adulta. Queria ser criança para ter as dúvidas todas e pensar que os outros, os adultos, mas dariam, infalíveis. E que bastaria a firmeza na voz e um afago na cabeça para espantar as dúvidas, como se fossem corvos no trigal.
Concentro-me na paixão. A paixão pode atear fogo entre duas almas e levar um corpo a arredondar formas, perante o embevecimento do outro, corpo. A paixão pode parir quatro filhos. O amor os educará. Mas, a paixão também pode ser a arma de fogo que arranca o sangue das veias e o torna visível. Letalmente, visível. Pum, pum.
O dicionário dá-me pistas, não respostas firmes: «do Lat. passione, sofrimento. s. f., sentimento excessivo; amor ardente; afecto violento; entusiasmo; cólera; grande mágoa; vício dominador; alucinação; sofrimento intenso e prolongado; parcialidade; o martírio de Cristo ou dos Santos martirizados; parte do Evangelho em que se narra a Paixão de Cristo; colorido, expressão viva, em literatura».
É pá, ela estava a pedi-las, caramba. Ainda mal se tinha divorciado e já tinha na cama outro, sob o tecto da casa que foi feita com o suor do trabalho do ex-marido. Ele passou-se, pá, que um homem não é de ferro, pá. Saiu de Espanha, irado, que nem cão raivoso. Entrou na madrugada, de arma em punho. E foi à queima-roupa. Pum, pum.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Assombro
domingo, 26 de outubro de 2008
Outubro
Imagem de Ralph Gibsonquinta-feira, 23 de outubro de 2008
Mata-borrão precisa-se

quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Dicionário da sobrevivência
(Imagem retirada da net)Cremações públicas, máquinas fotográficas arregaladas. Corpos enrolados em lençóis ardem à beira do rio. O rio não chora os mortos, enxuga as emoções e segue em frente, sempre em frente. A dignidade do movimento contínuo das águas. As cinzas a misturarem-se com o lado abjecto dos hábitos humanos. Estações de tratamento de águas residuais inexistem por ali. Nada que dissuada a meninice de refrescar o corpo na imundície liquefeita.
Na rua, duas existências cruzam-se. Uma menina pedincha atenção, pede «a book, a book». Não quer rupia, quer conhecimento. Não quer sonho, nem a candura dos contos infantis. Ignora que haja cor-de-rosa (nem imagina que exista uma coisa apelidada de imprensa cor-de-rosa). A menina quer um dicionário de nepalês/inglês. Conhecer a língua inglesa é o sonho pragmático a que a menina aspira. Quer um dicionário, para melhor pedir. O turista faz-lhe a vontade, vai a um quiosque e alimenta-lhe a sobrevivência.
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
E ficaram adormecidos para sempre
Imagem de Virgílio Ferreiraterça-feira, 14 de outubro de 2008
Veste-te
- Veste-te! – ordenou-lhe. Não suportava vê-la vulnerável. A nudez, física ou anímica, perturbava-o. Ele gostava de mulheres perigosas. Não queria familiaridade, não queria percorrer os sinais do corpo dela, como se fossem constelações. Não queria conhecê-la, saber que vidas, continentes, astros, ela trazia dentro de si. Queria-a contida, de espartilho. Mais observadora, que oradora. Queria-a perigosa, hábil na gestão de silêncio. O mistério era uma barricada desejável. Tinha de senti-la perversa, para ter prazer no saque. A mansidão na mulher causava-lhe repulsa.
Medida com pernas para andar
Imagem de Geoffroy DemarquetBulimia radical







