segunda-feira, 22 de junho de 2009

Afinal qual o berço?


A propósito da discussão sobre qual o local onde nasceu D. Afonso Henriques - Guimarães ou Viseu -, publico aqui um texto onde resumo as ideias expressas em «Viseu, Agosto de 1109, Nasce D. Afonso Henriques», tese defendida pelo historiador A. de Almeida Fernandes.


E se afinal D. Afonso Henriques tivesse nascido em berço viseense? Os manuais escolares ensinaram-nos a olhar para Guimarães e imaginar ser aquele o local onde D. Teresa terá dado à luz o primeiro rei português. No entanto, o historiador medievalista A. de Almeida Fernandes (nascido em 1917, em Britiande, Lamego, e falecido em Tarouca, em 2002) juntou provas documentais que atestam a possibilidade de D. Afonso Henriques ter nascido em Viseu, em meados de Agosto de 1109.


Este trabalho resultou de uma encomenda feita pela Unidade Vimarenense – Associação para o Desenvolvimento de Guimarães e sua Região. A associação pediu a A. de Almeida Fernandes que averiguasse onde nasceu D. Afonso Henriques, visto ter sido levantada a hipótese de Coimbra ser o berço do rei. A tese foi pela primeira vez publicada na Revista Beira Alta (1990-91) e em edição do Governo Civil de Viseu em 1993. A Fundação Mariana Seixas decidiu, em 2007, publicar, de novo, a tese de A. de Almeida Fernandes, uma vez que esta se encontrava esgotada.


A hipótese que defende que o nascimento de D. Afonso Henriques terá ocorrido em Guimarães carece de base documental. Então, por que se atribui à cidade minhota o berço do nascimento do primeiro rei português? Na obra «Viseu, Agosto de 1109, Nasce D. Afonso Henriques», A. de Almeida Fernandes alude que, na origem, poderá estar o facto de Guimarães ser palco dos principais acontecimentos de 1126-1128, iniciados no ano seguinte à iniciativa de D. Afonso Henriques se ter armado a si próprio cavaleiro, quando tinha 16 anos.


Segundo A. de Almeida Fernandes, Viseu guardava, desde a primeira metade do séc. X, a tradição de residência real e de verdadeira capital do reino. Do séc. XI para o XII, perante o alargamento dos domínios até ao Tejo, D. Henrique e D. Teresa tiveram necessidade de transferir para o sul do Douro a sua sede, a qual teriam em Guimarães. «Seria, pois, Viseu a residência mais naturalmente indicada – até porque na mais exposta Coimbra a densa moçarabia não lhes era convenientemente afecta. Se bem que existiam oposições moçárabes em todo o território ao sul do Douro, elas eram em Viseu praticamente nulas. Nota-se que, enquanto os ataques a Coimbra então, pelos Mouros, são frequentes, não se conta um a Viseu: muito maior segurança (…)», é descrito pelo historiador.

Almeida Fernandes defende ainda ser notória «uma grande predilecção de D. Teresa por Viseu, na correspondência ou em razão da dos Visienses por ela: a região é, largamente, aquela, em todo o Portugal de então, que mais actos e documentos de D. Teresa conta».

Tendo D. Afonso Henriques nascido em Julho ou Agosto de 1109 e estando D. Teresa nessa altura em Viseu, não restam, para o historiador, dúvidas de que Guimarães não acolheu o nascimento do primeiro rei português.


Em, «Viseu, Agosto de 1109», o historiador sustenta que D. Teresa não assistiu à morte nem às exéquias do pai, nem à cerimónia traditio super altare, em Coimbra, no regresso do conde D. Henrique da expedição a Sintra, tendo-se mantido em Viseu por uma razão: o nascimento do filho. Em sua substituição, D. Teresa mandou uma deputação representativa, «dando nela o lugar principal» a viseenses populares.


«Os indícios da residência de D. Teresa em Viseu depois do nascimento de D. Afonso Henriques são, pode dizer-se, directos (com manifestações em 1117, 1119 ou 1120, e 1127, pelo menos)», refere A. de Almeida Fernandes.


Têm sido publicados vários estudos relativos à figura de D. Afonso Henriques, propondo distintas teses sobre o seu local de nascimento. O historiador José Mattoso corrobora a tese defendida por A. de Almeida Fernandes. Na biografia «D. Afonso Henriques», Mattoso menciona que «a demonstração feita por Almeida Fernandes alcançou verosimilhança suficiente para se admitir como possível, ou mesmo a mais provável, até que outras provas sejam apresentadas em contrário». «É de facto admissível, com base nos documentos por ele invocados, que D. Afonso Henriques tivesse nascido em Viseu por meados do mês de Agosto de 1109», indica José Mattoso.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Quando o coração fala mais alto...

...em silêncio pode dizer-se tudo.


(via O Insecto...este escapou às mãos do Barack Obama)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Ó PETA vai-te encher de moscas

Imagem retirada da net

Perante isto, a reacção foi esta.

As moscas são tão queriduchas, amorosas mesmo. Será que a PETA se indigna se vir alguma alma maldosa a sacudir as moscas que teimam em pousar nas crianças subnutridas do continente africano ou nos pratos sobrenutridos dos países do primeiro mundo? É que as moscas estão carregadinhas de coisas boas: graciosidade, teimosia, bactérias.

É que nem convém sacudir as moscas, a bem da estabilidade emocional ou aerodinâmica das ditas. Podem ficam com stress pós-traumático. E uma mosca stressada pode perder a capacidade de disseminar doenças por aí.

Verão a conta-gotas

Ainda não vos disse que não gosto de trovoada a ribombar mesmo por cima de mim, nem de helicópteros (em particular do INEM) a voarem baixinho, quase a roçarem o meu telhado, quando estou a adormecer, pois não? Idiossincrasias.
Um dia após a minha inauguração particular do Verão, aí está a trovoada e a chuvinha. E o calor abafado. Ora toma que é para aprenderes que as calças são fiéis amigas, quase tão fiéis como a brancura da pele. Mas antes isso que ser protagonista do filme "Magnólia" ou morar no Japão. Não gosto de engolir sapos, é só por isso.

Sei que vou gostar do cheiro a terra molhada. E do apaziguar chilreante dos céus.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

É oficial: o Verão entrou em mim


Vestir uns calções representou, hoje, a minha inauguração oficial do Verão. Lembrei-me de um excerto de «Orlando», de Virgínia Woolf:

«Por muito fúteis e insignificantes que pareçam, as roupas têm (...)outras e mais importantes funções que simplesmente a de nos aquecer. Modificam a nossa visão do mundo e a visão que o mundo tem de nós.(...)

Não faltam, portanto, argumentos em favor da ideia de que são as roupas que nos usam e não nós a elas; podemos talhá-las segundo o molde do nosso braço ou do nosso peito, mas são elas que moldam a seu bel-prazer os nossos corações, os nossos cérebros, as nossas línguas.(...)

Se compararmos o retrato de Orlando homem com o de Orlando mulher, veremos que, embora os dois sejam indubitavelmente uma mesma e única pessoa, são de assinalar certas mudanças. O homem tem a mão livre para empunhar a espada, a mulher vê-se obrigada a usar a sua para impedir os cetins de lhe descaírem dos ombros. O homem olha de frente para o mundo, como se este fosse feito para seu usufruto e talhado a seu gosto. A mulher deita-lhe um olhar enviesado, cheio de subtileza, ou mesmo desconfiança. Se usassem os dois as mesmas roupas, é possível que a sua visão do mundo fosse a mesma».

Diz o coxo do manco



«O país cansou-se dessa arrogância que não é uma questão de forma, é de essência. O país cansou-se do excesso de propaganda e do défice de autenticidade».


[Será que ele se ouve a ele próprio ou será surdo que nem uma porta? Já agora,alguém sabe explicar-me por que razão se diz que uma porta é surda? É que uma mesa também será surda e ninguém usa a expressão: surda que nem uma mesa! E não acredito que a expressão tenha sido criada a pensar na família Portas.
Outras coisas se atribuem às portas, mas fico-me pela surdez]

Sou toda ouvidos

terça-feira, 16 de junho de 2009

Difamação II



O Tribunal de S. Pedro do Sul condenou dois jornalistas pelo crime de difamação, a propósito de uma notícia que fazia menção ao próprio Tribunal de S. Pedro do Sul. Ironias.



Viseu, 15 Jun (Lusa) - O Tribunal de S. Pedro do Sul condenou hoje, pela segunda vez, a ex-directora e um antigo jornalista do Jornal do Centro, publicado em Viseu, pelo crime de difamação.


Em causa está uma notícia da edição de 13 de Setembro de 2002 sobre a alienação de mobiliário antigo do Tribunal Judicial de S. Pedro do Sul, com o título de primeira página “Misericórdia sob suspeita”.


A notícia foi escrita pelo então jornalista Fernando Giestas e o editorial, onde era feita alusão ao assunto, pela antiga directora Isabel Bordalo.


Fernando Giestas foi condenado à pena de 270 dias de multa e Isabel Bordado a 290 dias, à taxa diária de sete euros, o que totaliza 1.890 e 2.030 euros, respectivamente.


Foram também condenados a pagarem solidariamente ao secretário de Justiça a exercer funções naquele tribunal, José Barros, e à Santa Casa da Misericórdia de S. Pedro do Sul 3.500 euros de indemnização civil.


Ambos tinham já sido condenados pelo Tribunal de S. Pedro do Sul e recorreram para o Tribunal da Relação de Coimbra, que mandou repetir o julgamento.


Depois de sete meses de julgamento, o tribunal voltou a condená-los, por considerar que “quiseram lançar a suspeita de que o responsável pelo processo de alienação do mobiliário antigo”, José Barros, tinha, “ao arrepio dos critérios legais”, favorecido a Santa Casa da Misericórdia relativamente a outras instituições e associações do Concelho.


O tribunal entendeu que “quiseram levantar a suspeita de que parte dos móveis entregue à Santa Casa da Misericórdia de S. Pedro do Sul foram depois entregues a funcionários” do próprio tribunal ou da instituição.


*Considerou também que quiseram lançar a suspeita de que José Barros “decidiu atribuir a maioria das peças de mobiliário” à Santa Casa “porque tinha a garantia de que, se assim acontecesse”, posteriormente esta “doaria alguns desses bens aos funcionários que nessa altura trabalhavam no Tribunal Judicial de S. Pedro do Sul”.


Para o tribunal, a “suspeita levantada pelos arguidos não tinha qualquer fundamento”, porque José Barros não estava obrigado a contactar todas as instituições e até colocou os móveis no átrio de entrada e corredor do tribunal para que as instituições escolhessem os que queriam receber.


Refere que, apesar de terem recebido esclarecimentos do provedor da Santa Casa da Misericórdia e da Direcção Geral da Administração da Justiça, que negaram entrega dos móveis a funcionários, “não se inibiram os arguidos de publicarem tais notícias”.


“Os arguidos tinham conhecimento de que muitos leitores apenas lêem e retêm a informação constante dos títulos das notícias que são publicadas”, considera o tribunal.


O tribunal valorou os depoimentos das testemunhas de acusação, por se lhe terem afigurado “isentos e verdadeiros”. Já no que respeita às de defesa, entendeu que, à excepção de duas, as restantes, ”por uma razão ou outra, prestaram depoimentos subjectivos e parciais, tentando desresponsabilizar os arguidos”.


“Os arguidos terão feito o que estava ao seu alcance para apurar os factos. Efectivamente, terão dado os passos certos. Porém, com o material que tinham não podiam ter produzido os artigos que escreveram”, defende o tribunal.


Sara Marques, advogada do grupo Sojormedia (que publica o Jornal do Centro), disse à Agência Lusa que pretende mais uma vez recorrer da decisão.

AMF
Lusa/fim


* Eu estou pitosga (mesmo com óculos postos) ou em momento algum da notícia do Jornal do Centro é lançada esta suspeita sobre José Barros?! Já li o texto do Fernando Giestas e o editorial uma data de vezes e não vi os jornalistas a "acusarem" o secretário de Justiça de querer doar o material à Santa Casa da Misericórdia com o intuito de esse mesmo material vir a ser doado a funcionários do tribunal. Já nem entro noutros pormenores. Apenas neste, que não me parece ter laivos de subjectividade.

Esta notícia, escrita por Fernando Giestas, funcionou como serviço de utilidade pública: explicou aos leitores (incluindo as associações locais) como funciona o processo de alienação de mobiliário de um tribunal. Saiu caro.


Difamação I




Património do Tribunal alienado apenas a algumas associações

Suspeitas sobre a Misericórdia de S. Pedro do Sul


O Tribunal de S. Pedro do Sul remodelou a maioria do mobiliário que possuía desde a inauguração, em 1973. Mobilado de novo, o tribunal teve que alienar os bens antigos. Foi o que fez. Algumas associações e instituições públicas do concelho receberam mobiliário. A maioria não recebeu. A Misericórdia de S. Pedro do Sul foi a instituição que obteve o maior número de bens. Metade do mobiliário. Sobre a instituição recaem suspeitas de que parte do mobiliário recebido foi parar a casas particulares.

Texto Fernando Giestas

A lei determina que, em caso de alienação de bens de um tribunal, as associações locais sejam contactadas directamente. Não há lugar a anúncio público. Foi o que aconteceu. Algumas associações tomaram conhecimento da alienação do mobiliário do Tribunal de S. Pedro do Sul. Outras não. De todas as instituições públicas ou associações do concelho, apenas seis receberam mobiliário. Estabelecimento Prisional Regional, Posto da GNR, Misericórdia, Grupo de Teatro Cénico, Centros Sociais de Valadares e de Vila Maior.
A disparidade das peças de mobiliário atribuídas a cada uma das instituições também não é aceite de forma pacífica em S. Pedro do Sul. A Misericórdia recebeu 34 bens; o Estabelecimento Prisional recebeu 17; o Centro Social de Valadares recebeu 6; o Posto da GNR recebeu 5; o Centro Social de Vila Maior recebeu 4; o Cénico recebeu 3.
O facto de a Misericórdia de Santo António ter sido a instituição com mais bens atribuídos causa estranheza a responsáveis de outras associações locais. Dos 69 bens, a Misericórdia recebeu 34. Das três dezenas de peças, há suspeitas de posse indevida por parte de particulares.

Alienação “está nas mãos” do secretário
Fonte da Direcção-Geral da Administração da Justiça (DGAJ) explicou ao Jornal do Centro o procedimento a seguir em caso de alienação de mobiliário de um tribunal. Depois de nenhum serviço da administração pública ter mostrado interesse no mobiliário, “os bens são considerados disponíveis para alienação, designadamente a título gratuito”. Depois é o secretário de justiça do tribunal a dar seguimento ao processo. “Consulta directamente as entidades da localidade, propondo a alienação gratuita às que se mostrem interessadas”. É o que determina o decreto-lei 307/94, de 21 de Dezembro. Um diploma vago, que não estabelece critérios de selecção, nem estipula anúncio público. Todo o processo fica sob a responsabilidade do secretário de justiça do tribunal. Um funcionário determina quem recebe e quem não recebe, sem grandes constrangimentos legais.
A fonte da DGAJ contactada pelo Jornal do Centro reconhece que “está na mão do secretário de justiça” definir os parâmetros da alienação, mas garante que o procedimento previsto na lei foi assumido pelo Tribunal de S. Pedro do Sul. O responsável garante que não tem conhecimento de nenhuma reclamação até à data, de nenhum processo de alienação de bens de um tribunal. “Normalmente, até há dificuldade em arranjar instituições que recebam o mobiliário”, dado o mau estado em que se encontram as peças.
O secretário de justiça do Tribunal de S. Pedro do Sul, José Martins de Barros, entra em contradição com o responsável da DGAJ quando diz que a alienação do mobiliário “não foi comunicada” a nenhuma instituição. As entidades “apareceram” e solicitaram os bens. Martins de Barros considera que o processo se resume a uma “questão de raciocínio”: as associações viram o mobiliário à entrada do tribunal e solicitaram os bens que interessavam.

Hóquei Clube considera-se excluído
Algumas associações do concelho de S. Pedro do Sul lamentam não ter sido informadas da alienação do mobiliário antigo do tribunal. O presidente do Termas Hóquei Clube, Joaquim Cardoso, faz uma acusação mais grave. Teve conhecimento “de que havia material para ser dado”, endereçou “uma carta ao secretário judicial do Tribunal de S. Pedro do Sul a solicitar mobiliário”, mas a “carta ficou sem resposta”. “Posteriormente, soube que a maior parte dos bens foi dada à Misericórdia”. Joaquim Cardoso está na disposição “de questionar o Ministério Público acerca dos destinos do mobiliário”. O presidente da Associação Cultural e Recreativa de Arcozelo (ACRA), Jorge Manuel Pereira, “soube a posteriori” da alienação de mobiliário. “Não chegou qualquer tipo de informação, senão também nos candidatávamos”.
Outra colectividade local, o grupo Alafum, também não tomou conhecimento do processo. José Fernando, responsável do Alafum, “teve conhecimento há dias, por um amigo”. Parte do mobiliário que o tribunal alienou “seria útil para guardar o espólio do grupo. Dava jeito”, lamenta José Fernando.


Caixa do texto principal, da responsabilidade do colega José Guilherme Lorena (que não foi constituído arguido):

Parte dos móveis “escavacados”
Misericórdia nega oferta a funcionários do tribunal


O provedor da Misericórdia de S. Pedro do Sul, Manuel Paiva, faz uma expressão de espanto quando é questionado sobre se alguns dos móveis ofertados pelo tribunal da comarca local terão sido dados a funcionários daquela instância judicial: “Não é verdade. Nenhum do mobiliário que recebemos foi oferecido a funcionários do tribunal.”
A garantia de Manuel Paiva é dada depois de confirmar a recepção de móveis antigos do tribunal: “Perguntaram-nos há uns meses se aceitávamos móveis. Respondemos positivamente, mas levou meses a decidir a doação. Temos aqui grande parte do material recebido”, diz Manuel Paiva, acrescentando que algum mobiliário foi “dado a funcionários” da Misericórdia e a “pessoas necessitadas”.
“A maior parte das secretárias que nos deram está toda escavacada. Só estão melhores os bancos corridos e os armários”, sustenta Manuel Paiva. Questionado sobre o número dos móveis recebidos, Paiva não se recorda, mas duvida que tivesse ultrapassado as 30 unidades. “Eu sei lá, vieram algumas coisas que estão para aí espalhadas, para além das que demos a quem precisasse”, afirmou.

“Nada” a esconder
Sobre a denúncia de outras associações do concelho, que consideram ter ficado excluídas do processo de distribuição de distribuição do mobiliário, Manuel Paiva diz estar “à vontade”. “Não pedimos nada e se alguém precisar de móveis pode vir cá à Misericórdia que nós oferecemos”, promete. Paiva adianta mesmo que têm sido emprestadas peças (bancos corridos, por exemplo) a outras instituições do concelho: “Os organizadores do ‘Andanças’ levaram alguma coisa há dias”, recorda.
Perante o pedido de serem vistos os móveis, Manuel Paiva concorda e, à vontade, diz que “nada há a esconder”. E conduz o Jornal do centro ao salão contíguo ao refeitório da instituição, onde se contam quatro secretárias, dois armários e um banco corrido. “O resto foi dado a quem precisasse e anda por aí emprestado, para além de outras peças melhorzinhas que aproveitámos para a Misericórdia. Mas se quiserem ver tudo, eu arranjo maneira de reunir o que o tribunal nos deu”, diz Manuel Paiva, acrescentando não se “importar” com as denúncias de favorecimento do organismo que dirige.
E repete, por mais que uma vez: “Se alguma associação quiser mobiliário pode vir cá que nós damos!” /J.G.L.




Editorial

Injustiças

O Tribunal de S. Pedro do Sul recebeu mobiliário novo. E teve que se desfazer do velho.
Há um norma legal que estabelece que em caso de alienação de mobiliário pertencente a um tribunal, a Direcção-Geral da Administração da Justiça procura, num primeiro momento, a afectação do material a outro tribunal mais carenciado.
Se nenhum quiser, indaga outros serviços no Ministério da Justiça.
E caso aí também não haja interessados, a Secretaria-Geral comunica à Direcção-Geral do Património do Estado para verificar se existe alguma entidade da administração pública que precise dos móveis.
Se nenhum serviço do Estado estiver interessado, o mobiliário é dado a instituições da localidade onde está o tribunal. Neste caso S. Pedro do Sul.
Muito bem.
Só que o mesmo diploma que define, com extremo rigor, o percurso a fazer até esgotar os interessados na administração pública não usa, do mesmo rigor, na alienação a entidades exteriores ao Estado.
Pega-se no mobiliário e entrega-se.
Sem concurso público.
Sem critérios de distribuição.
Sem preocupação em levar a informação a todas as entidades eventualmente interessadas. Todas mesmo.
E concentram-se peças numa só mão. Sabe-se lá porquê. E em nome de quê.
Não admira que as suspeições se levantem.
Não admira que as queixas se sucedam.
Não admira que a justiça se transforme em injustiça.
Isto quando bastava levar a preocupação um pouco mais longe.

Isabel Costa Bordalo

domingo, 14 de junho de 2009

Respirar

Desenho de Rui Chafes



Respirar-te mais próximo.
Pulmonar este sentir
que te faz navegante no meu sangue.


Chorem, amigos, chorem

Imagem de Federico Bebber


Ai não querem chorar? Não?

O problema é vosso.




sexta-feira, 12 de junho de 2009

Vício



Estou completamente viciada em Zafón. Entrei com desconfiança na obra de Carlos Ruiz Zafón. Resultado: devorei «A Sombra do Vento» e embrenhei-me, com avidez, em «O Jogo do Anjo». Quando desconfiamos da nossa própria desconfiança, às vezes, temos boas surpresas.


«- É verdade que nunca leste nenhum destes livros?
- Os livros são aborrecidos.
- Os livros são espelhos: só se vê neles o que a pessoa tem dentro - replicou Julián».

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Pátria minha

terça-feira, 9 de junho de 2009

Para além da espuma dos dias




Amor não é um frasco de mel que se compra no supermercado. É mais a acção de enfrentar a picada da abelha, para ir directamente à colmeia buscar a pureza do mel. Podem começar a dizer que hoje só falta a mulher nham nham pôr os violinos a tocar. Soubesse eu tocá-los. A verdade é que nunca vou achar que uma história de amor é lamechice (não confundir com demonstrações públicas de desejo, daquelas bem melosas e pegajosas).

Gosto da construção do amor, dos andaimes suspensos, do cimento do tempo. Não acredito no instantâneo, nem em arquitecturas perfeitas. Sei - saberemos todos - que amar não é necessariamente igual a ter uma relação amorosa: nem sempre temos um compromisso relacional com quem amamos; nem sempre amamos quem namoramos. A raridade é conseguir conciliar, harmonizar, o estado de alma com o estado civil. E fazer perdurar.

Uma relação amorosa pode ser apenas isso mesmo: uma relação amorosinha, fofa, boa para dias de sol, boa para espairecer, boa para posar nas fotos dos casamentos dos amigos, boa enquanto a vida é boa (o que já não é mau). Mas o amor vai para além do peluche, vai para além do "tudo corre bem enquanto a vida vai boa".

As relações apenas fofas normalmente não sobrevivem aos dramas.O meu irmão terminou uma relação, que já levava seis anos, porque afinal sentiu que um namoro fofinho não lhe chegava. Percebeu que, perante a doença da mãe, precisava de uma mulher que lhe desse força e amor e não de uma jovenzinha que amuasse perante a falta de vontade dele para passeios. O meu irmão deixou de ver futuro ao lado uma jovem sempre com cara de "toda a gente me deve e ninguém me paga", uma rapariga que agia como se a minha mãe estivesse internada no hospital por causa de uma constipação e não por causa de um cancro colo-rectal.

Quando a vida não corre bem é preciso mais que paixão para segurar um relacionamento. Por isso, comovi-me com o mail, que me enviaram, com a história de Katie Kirkpatrick e Nick Godwin. Tratei de reencaminhar, para alguns amigos, o mail intitulado «O amor tudo pode». Recebi hoje uma resposta. A resposta de um homem. Partilho aqui porque sim. E porque gosto de ver homens sem medo de dar palavras aos sentimentos.



«Pensei logo na imagem de Chloé que Boris Vian nos dá em “A espuma dos dias”. Uma Chloé deitada com o seu vestido de noiva, mergulhada no perfume das flores que a cercam e um Nenúfar crescendo insidiosamente no seu peito, anunciando a morte numa narrativa surreal e desconfortável.


Assim, talvez entendas os sentimentos que se misturam meteóricos no cruzamento de palavras e contextos. É certo que acredito no Amor...se acredito... Mas custa-me ver partir aqueles que se embrenharam nos meus dias, com uma qualquer flor cravada em segredo nos seus corpos.


E eu que gosto de flores, como o narciso que rompe a terra fria, anunciando em Março o fim da Invernia.

Um beijo»

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Que não seja literalmente




«Gestores dizem que sector da aviação vai continuar a cair»


O Público com queda para títulos carregados de humor negro.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Sou toda ouvidos





Misery is a butterfly, Blonde Redhead

Dearest Jane I should've known better
But I could'nt say hello, I didnt know why
But now I think, I think you were sad
Yes you were, you were, you were

What I say, I say only to you
Cause I love and I love only you
Dearest Jane, I want to give you a dream
That no one has given you

Remember when we found misery
We watched her, watched her spread her wings
And slowly fly around our room
And she asked for your gentle mind

Misery is a butterfly
Her heavy wings will warp your mind
With her small ugly face
And her long antenna
And her black and pink heavy wings

Remember when we found misery
We watched her, watched her spread her wings
And slowly fly around our room
And she asked for your gentle mind

Miséria

Imagem de Simona Carli



Tostões contadinhos por mãos àsperas, calejadas. A alma puída, de tanto pensar na sobrevivência. Medo da fome. Miséria. Filhas. Vaginas. Vaginas que hão-de ter alguma utilidade. O querer, o prazer, que o tenham quando casarem com alguém que as sustente. Sexo de conveniência, consentimento materno, verdade inconveniente.Queimaram-se as asas da inocência. Senhor feudal, vassalagem. Ora dê cá as filhas, ora tome lá o cajado para o marido.

Se eu fosse radical, diria que isto não andará assim tão longe disto. Se fosse radical diria que a diferença será uma questão de maquilhagem. Mas não, não vou ser radical.

A estátua mais bem paga do país

Imagem de Alan Peeler



«O El País, no último domingo, trazia uma notícia com o seguinte título: "Banca a la deriva en Portugal". De facto, os casos BPP e BPN são uma vergonha. E a nossa supervisão bancária também.

Os banqueiros implicados devem ser postos a ler livros debaixo do mesmo tecto que abriga o senhor Oliveira Costa.

E o Banco de Portugal precisa de novo governador. Deste já chega.

Vítor Constâncio é a estátua mais bem paga do país.

Ficou imóvel durante anos enquanto os bancos atropelavam os clientes nos arredondamentos dos juros.

A sua quietação não conheceu nenhuma inquietação durante os anos de gatunagem no BPN. E isso ficou caro ao país. Muito caro.

Já chega».


Alex, o pensador de Rodin, dixit.
[ponho o link?]

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Vermelho








«O verme diz-nos que é preciso estar imóvel
O peixe diz-nos que é preciso fluir
A flor diz-nos que a beleza é silenciosa
Mas nós não sabemos pousar numa folha verde
nem deslizar sobre a água como um cisne
Perdemos o ouvido branco e o ouvido verde
com que ouvíamos as tranças e as rendas naturais
e não temos a noção da redondez dos pés (...)»


[António Ramos Rosa, in Deambulações Oblíquas]


quarta-feira, 3 de junho de 2009

Até a mãe estranha...

Juro, mas juro mesmo, que não queria - pelo menos enquanto ela não perder a virgindade em directo na TV - voltar a falar na Floribela com espírito clubístico. Mas o amigo Alex picou-me e mandou esta preciosidade.

Dreamtime

Imagem de Speranskaya Mikaella

A minha vida não está perfeita (o verbo estar assume aqui um pendor menos fatalista, ou determinista, que o verbo ser). Mas o que sou pode surpreender-me. E é tão bom, tão bom, tão bom, não perder a capacidade de me surpreender a mim mesma. E é tão bom, mas mesmo bom, descobrir ocasionalmente que há algo que nos faz revirar por dentro, quando a vida não está perfeita e se anda murcho, algures entre a rinite e a sinusite e próximo de outras doenças de gravidade incomparável.

Descobrir, de súbito, o que queremos mesmo fazer na vida, fazer da vida, fazer com vida, traz um entusiasmo inesperado. Espero que este entusiasmo não seja passageiro, como as nuvens, mas que crie raízes para consolidar o sonho que me caiu no regaço.

Às vezes, andamos às apalpadelas, temos uma ideia etérea na cabeça, e de repente: eis, é mesmo isto. E só nos espantamos por não termos visto, há muito e com toda a clareza, o que é óbvio. Não há nariz obstruído que me tire o sorriso do peito. Por isso, nada como uma música com power para alimentar este estado de espírito.




E se ficasse sem a sua ciberhorta?


Imperdível o texto «E se de repente lesse "o seu blog não está mais disponível"?» , no Certamente!, de Paulo Querido.

«Existe um perigo em entregar o nosso trabalho à “nuvem”. É bom que comecemos a avaliar os riscos da produção de conteúdos online. Quantas vezes aquilo que começa como um despretensioso blog vai crescendo até se tornar num caso sério, e pensamos em todas as horas ali metidas, e em todo o valor gerado com a comunidade, e pensamos nos laços (e também nos links).
O desaparecimento do 360º é o desaparecimento de 10,8 milhões de páginas e 3 milhões de links que subitamente deixarão de levar a algum lado. E estamos a falar e um serviço com a morte decretada há 18 meses.
Se o Blogspot fizesse o mesmo, 16 milhões de blogs fechavam. 420 milhões de páginas sumiam-se dos arquivos e dos motores de busca. 70 milhões de links seriam inutilizados. Pense em quantas das suas horas de dedicação eram evaporadas. Pense nisso na próxima vez que abrir um blog ou plantar a semente da sua marca num terreno sobre o qual não tem nem jurisdição nem controlo».

domingo, 31 de maio de 2009

Da ruralidade


Irrito-me, com alguma solenidade, quando a comunicação social (cs), da qual faço parte, trata quem vive fora de Lisboa como gente parola, ignorante e feia. A cs gosta de ir até ao que detestavelmente designa por «Portugal profundo» e encontrar personagens risíveis ou dignas de dó, para encaixarem na ideia feita que têm sobre o que é isso de viver no interior do país.

O estereótipo é muito condizente com a escassez de tempo e dinheiro que as redacções vivem. E como a maioria dos jornalistas vive em Lisboa, e muito centrados na redacção, nas fontes do costume, nos ambientes citadinos do costume, quando saem para o «mundo real» (designação que só vem reforçar o facto de muito jornalista viver desligado das vivências de uma grande parte do país, à beira-rio plantada), toca de procurar o estereótipo. Porque é giro mostrar à urbe como se vive nesses locais exóticos chamados de aldeias e dar a conhecer pessoas, tadinhas, broncas que valha-lhes deus.

O estereótipo pode ser a velhota toda vestida de preto, lenço na cabeça e buço viçoso, pode ser a pessoa de Biseu que fala axim ou a pexoa de outro xítio qualquer desde que fale axim. O estereótipo passa por um jornalista ir fazer uma reportagem a Oliveira do Douro, em Cinfães, distrito de Viseu, sob o pretexto de se tratar da freguesia que registou a abstenção mais elevada nas últimas eleições europeias, e tratar, de forma humilhante as fontes. Se Oliveira do Douro é a freguesia mais abstémica, vamos lá mostrar o porquê. A ideia é boa. O resultado decepcionante.

Vem isto a propósito de quê? De um artigo escrito por JFG, nesta edição do SOL. Aprecio o trabalho do JFG (e foi com espanto que vi que o texto era assinado por ele). Mas a reportagem «Longe da Europa» está longe de me motivar elogio.

A reportagem começa desta forma: «Fátima, de 44 anos e feições rurais, tem ideia de que em Junho haverá umas eleições. “São para a Junta de Freguesia, ‘num’ é?». O que são feições rurais? De que forma o facto de se nascer em meio rural condiciona os traços do rosto? Alguma vez algum jornalista escreveu: «Mário Lino, ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, 69 anos e feições rurais»? Não, pois não...o senhor ministro pode ter feições grosseiras, mas nunca foi chamado de rural ou boçal num texto jornalístico, pois não? Dias Loureiro (natural de Aguiar da Beira), Jorge Coelho, (natural da aldeia de Contenças-Gare, em Mangualde) ou Pinto Monteiro (de Porto de Ovelha, em Almeida) nunca foram tratados, na cs, como pessoas com feições rurais, pois não? Se o JFG queria dizer que a senhora dona Fátima não devia muito à beleza, mais valia dizer que ela é esteticamente pouco agradável (que é menos fruto da circunstância geográfica e mais dependente da genética ou do desleixo).

Na reportagem lê-se ainda: «A conversa do SOL com uma funcionária é interrompida aos gritos pela «responsável», uma mulher gorda e antipática, de voz bruta». Como? Chama-se assim, com todas as letras, alguém de gordo, antipático e ainda se diz que a voz é bruta??? Já viram jornalistas a ousarem chamar algum político de gordo (mesmo que o seja), antipático (mesmo que o seja) e a acusarem-no de ter voz bruta (mesmo que a tenha), perante a recusa em prestar declarações? Não, não se chama alguém com poder de nomes feios, muito menos num texto jornalístico. Até porque gente com poder tem advogados.

Pelo meio do texto, JFG ainda fala dos «dentes amarelos e espaçados» de Nazaré, uma mulher de 65 anos. Um pormenor importantíssimo que ajuda a perceber o facto da senhora dona Nazaré confundir o nome Paulo Rangel com Paulo Regente. O problema da falta de informação ou desinteresse deve estar ligado a um problema de dentição. Deve ser isso.

Que JFG tenha ficado incrédulo com tamanha ignorância das mulheres de Oliveira do Douro (só falou com mulheres, curioso), compreendo. Eu também fico atónita de cada vez que encontro pessoas, rurais ou citadinas, com os horizontes mais curtos que os do frango de aviário. Mas da estupefacção à ofensa vai um passo…o passo (im)ponderado da escrita. E o resultado final da reportagem humilha as mulheres de Oliveira do Douro.


P.S
. Sublinho que tenho o maior respeito profissional por JFG. Considero-o um bom jornalista e não é este trabalho que muda a minha opinião sobre as virtudes de JFG. Este post "serve-se" apenas de um artigo recente, em que é visível o olhar preconceituoso que se lança sobre o meio rural, para abordar uma questão que é prática comum no jornalismo. Foquei-me no texto de JFG porque foi o exemplo mais recente que me passou pelos olhos. E só por isso.

Mileuristas (ou menos ainda)

Imagem de Céline C.


Babylosers, Geração Peter Pan, Pobres limpios, mileuristas...nenhuma das designações alegra a alma ou o bolso. Adeus, classe média.


«Hace cuatro años, Carolina Alguacil hizo una definición precisa y certera cuando acuñó el término de mileurista. "Es aquel joven licenciado, con idiomas, posgrados, másteres y cursillos (...) que no gana más de mil euros. Gasta más de un tercio de su sueldo en alquiler, porque le gusta la ciudad. No ahorra, no tiene casa, no tiene coche, no tiene hijos, vive al día... A veces es divertido, pero ya cansa". Si hubiera que reescribir ahora esa definición sólo habría que añadir: "El mileurista ha dejado de tener edad. Gana mil euros, no ahorra, vive al día de trabajos esporádicos o de subsidios y, pese a todo, no se rebela».



sexta-feira, 29 de maio de 2009

Públicas virtudes

A origem do mundo, de Gustave Courbet


Fosse hoje e a Virgem Maria teria tido o Jesus no Hospital da Luz, com o alto patrocínio de uma estação televisiva. Fosse hoje, e o José carpinteiro seria o porta-voz da Ikea. À falta de melhor [porque notícia, notícia, é uma virgem que engravida], iremos assistir, num qualquer canal de televisão, à primeira consulta de ginecologia da virgem de 26 anos, que agora é relações públicas do Benfica.

Lá que arranje novo emprego à conta do mediatismo, vá compreende-se. É sinal de esperteza. Há que fazer pela vidinha e fazer render o que singulariza...nem que a singularidade seja a passividade. Há quem desenvolva o talento de ser virgem, com um labor árduo de se deixar estar, intacta, como veio ao mundo. Até aí tudo bem.

Já me custa a perceber é por que razão, a Margarida Menezes quer as tv's na primeira consulta de ginecologia...ela estará a pensar ir a a uma consulta a Faro e está com medo, é isso? Ou é para o médico atestar, em directo, a virgindade, não vá alguém, neste país, pôr em causa a pureza da menina?


Não vejo onde está a controvérsia


«We have the wrong analogy when it comes to treating cancer. Instead of the analogy between cancer and bacterial infections, we should be using an analogy between cancer and invasive species. The goal is not to eliminate pests because applied ecologists have learned that’s futile. Instead what they’ve learned to do is to keep the pests at a tolerable level».

Não vejo mesmo controvérsia alguma na
proposta desassombrada do médico radiologista Robert Gatenby. Quando não há cura possível, a aposta deverá ser maximizar a qualidade de vida do doente oncológico.
A impossibilidade da cura não é controversa. Faz doer a alma, espanta as ilusões que vêm a reboque da quimioterapia e/ou radioterapia, mas não cria controvérsia. Admitir a impossibilidade da cura coloca, diante do doente e da família, o espelho da mortalidade. E isso tem carga trágica, não polémica. Vejo muita coisa nas palavras de Gatenby, polémica é que não.

Sou toda ouvidos

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Globos de ouro na Índia



A Bombay Tv é um tesourinho anti-deprimente. E tem de tudo, até a versão masculina da Bárbara Guimarães. Lábios menos carnudos é certo, mas com um sacudir de ancas que faz favor. E o apresentador dos Globos de Ouro lá do sítio teve o bom senso de dispensar a fatiota dourada dos Manéis.


quarta-feira, 27 de maio de 2009

i9



Os muros mais intransponíveis são os que vamos construindo dentro de nós. Começamos a envelhecer, quando atafulhamos o olhar de rotina e imagens gastas e nos fechamos ao deslumbramento de ver o mundo numa perspectiva criativa. Mas, inovar é possível, como nos mostra o José Miguel, a Rute e a Raquel, o Ivo e a Liliana ou a Rosa (que até já foi vítima de plágio por parte de uma empresa holandesa).




Fui aqui apropriar-me de leituras alheias. Mas o que é bom é para disseminar, como peniscos em dias de vento.


«(...) Quem poderá ir em peregrinação ao centro do tempo?

Os pais com os seus filhos. E os amantes.

(...) Os que não se encontram exactamente no centro da morte ainda podem mover-se, mas fazem-no à velocidade dos glaciares. Pode levar-se um ano a escovar o cabelo, mil anos a dar um beijo».


[Alan Lightman, in Os Sonhos de Einstein]

terça-feira, 26 de maio de 2009

Vítimas da poupança

Imagem de Julie De Waroquier



«Nunca pensei que reivindicar a possibilidade de levantar o dinheiro que é meu fosse notícia num país da Europa. Já tinhamos ouvido falar disso noutras latitudes, mas na Europa, e em Portugal, é incompreensível. Xulio, galego, quer ser identificado apenas como «Xulio, cliente do BPP». «Ou melhor dizendo vítima. Porque eu não sou cliente, sou vítima de uma campanha comercial muito bem montada, que me convenceu a depositar dinheiro num banco que eu pensava sério, porque a pessoa que me convenceu era uma pessoa muito séria».

[Público, 26 de Maio de 2009]


Existem as vítimas do consumismo e também as vítimas da poupança. No caso do BPP, a confiança na seriedade de uma instituição bancária transformou os clientes em vítimas.
Mas existe quem se transforme, por vontade própria, em vítima da poupança. Gente que retrai a existência até ao nível mais básico. Como é o caso de pessoas que auto-impõem uma vida de miséria, para se poderem regozijar com uma conta bancária milionária. Morrem de coração e horizonte vazios, mas com conta bancária cheia. A verdadeira pobreza de espírito.
Conheço quem tenha uma avultada soma de dinheiro e nunca use fogão a gás (nem para fazer um chá), apenas fogão de lenha todo o ano. No Inverno, a única divisão quente da casa é a cozinha. Têm máquina de lavar roupa e nunca a usam, optando pela utilização do tanque de água fria. Têm roupa impecável no guarda-fatos (inebriada pelo cheiro a naftalina) e usam qualquer coisa que na falta de melhor termo se designará por trapos. Toda a roupa é ponteada até à exaustão, como facilmente percebe quem se cruze com eles na rua. Têm um filho único a quem não dão, nem nunca deram afecto (meteram o filho num colégio interno não por preocupações educacionais, mas para o terem à distância). Têm dois netos que não acarinham, em palavras ou actos. Muitas omissões. Ausência de gestos meigos e ainda menos de dádivas monetárias.
Tempos houve em que os netos, quando festejavam a data de nascimento, levavam bolo de aniversário a casa dos avós. Levavam por atenção, para mimarem os avós. Quando perceberam que a oferta de bolo era encarada, pelos avós, como uma dádiva que exigia um cheque em troca, os netos deixaram de ir lá nos aniversários. «Sabes, não temos nada para te dar» ou «Olha, o cheque vai ser pequeno porque tivemos muitas despesas», era o que de mais simpático saía daquelas bocas. Os netos, já na idade adulta, sentiram mesmo que aqueles avós não tinham nada para dar, nada do ponto de vista humano entenda-se. Desistiram deles. A linguagem do amor não se traduz na assinatura de um cheque.
Este casal costuma dizer ao filho: «Quando morrermos, ele cá fica». Ele, o dinheiro. Ele, o dinheiro, que será herdado porque não é possível levá-lo para a cova. Um dia, a avareza irá ser a carpideira de serviço. Haverá maior miséria que esta?

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Sonhos (de)pendurados






«- Sabem por que é que o mercado da pintura está a disparar assim? - explicava Hugh. - Muito simplesmente porque as pessoas não têm tempo para sonhar, e então compram sonhos. "Há a televisão", dirão vocês. Pois é, mas a televisão é como água, aquelas imagens vão-se e ninguém tem tempo de tornar a vê-las no vídeogravador. O quadro, pelo contrário, fixa. A pintura sonha e fixa».


[Julia Kristeva, in Os Samurais]

domingo, 17 de maio de 2009

Vida.com



Já vos disse o quão me toca este filme? Não, pois não. Nem conseguiria quantificar.

A minha vida enche-se de ternura com «A minha vida sem mim», de Isabel Coixet. Uma pérola, que guardo na concha das vibrações emocionais.

Pés de barro

O Modelo Vermelho (1937), René Magritte


CANCER CELLS


"Cancer cells are those which have forgotten how to die."
(Nurse, Royal Marsden Hospital)

They have forgotten how to die
And so extend their killing life.

I and my tumour dearly fight.
Let's hope a double death is out.

I need to see my tumour dead
A tumour which forgets to die
But plans to murder me instead.

But I remember how to die
Though all my witnesses are dead.
But I remember what they said
Of tumours which would render them
As blind and dumb as they had been
Before the birth of that disease
Which brought the tumour into play.

The black cells will dry up and die
Or sing with joy and have their way.
They breed so quietly night and day,
You never know, they never say.


O dramaturgo britânico Harold Pinter, que morreu, aos 78 anos, vítima de cancro, escreveu este poema em 2002. Há uns anos, um amigo, colega da redacção de então, tinha um recorte de jornal, com este poema, colado na lateral esquerda do computador. Lembrei-me do poema hoje.


Este fim-de-semana, um jantar, em casa de uma amiga, fez-me reencontrar com uma antiga colega de trabalho. A F. minguou. O corpo da F. parece querer ocupar o menor espaço possível, como se, perdendo volume, houvesse menor espaço interior para a dor. O pai da F. também vai perdendo peso, à medida que as células-que-se-esqueceram-de-morrer se estendem como sombra. O corpo do pai de F. foi aberto, para logo ser fechado. Porque o tumor se tornou dono e senhor daquele corpo.


O pai de F. está a morrer e F. está à beira da implosão. A médica que acompanha o pai, no hospital, disse-lhe que ela este fim-de-semana tinha de contar tudo, tudo, à mãe. A mãe de F. está ainda na fase da negação. A irmã de F. está nuns 19 anos muito egocêntricos, não tem noção de que o pai está a morrer. Há um ano, F. explicou à mãe que o tumor não foi removido, que a cirurgia serviu apenas para aliviar, não para eliminar. A mãe alheou-se da realidade. E agora F. tem de lhe colocar os pés na terra. E como fazer isso, sem enterrar a esperança?


Como dizer à mãe para aproveitar os últimos tempos de vida do pai? Como contar à mãe aquilo de que a mãe já se deveria ter mentalizado há um ano? Como nomear aquilo de que se quer fugir? Como falar da iminência da morte, sem fazer uma espécie de luto antecipado? Como ser frontal com a mãe, sem lhe dar um abraço? [um abraço que F. não se sente capaz de dar porque não está habituada a abraçar a mãe e sabe que abraçá-la agora é admitir a gravidade da situação, é revelar a vulnerabilidade]

F. descobriu, há dias, que o pai tinha cócegas nos pés. F. comprou um creme gordo para hidratar os pés do pai, no hospital. Ao massajar os pés descobriu o que, em anos de convivência, ainda não tinha descoberto.


F. sabe que eu estava a conversar com ela e a sentir-me descalça, com pés de barro.


quinta-feira, 14 de maio de 2009

Fertilidade







Hoje, como há 35 mil anos, o erotismo. O corpo feminino como campo sem pousio. Seios e ventre em crescente arredondar, a perpetuação da mortalidade. Imortal desejo de ser, em comunhão.




As ondas rebentaram na saia
muito perto da estrada de pó.
O teu corpo por escrito em cima da mesa:
«Pégaso trocou as asas pelo peso de uma mulher».

Fomos recebendo o dia como se ele fosse
as margens e a sombra e nós
o caudal lento entre as pernas da terra.
Cada gota um meio. Nem princípio nem fim.

E o dia chegou nu sem penas nem pêlos
igual aos animais alados cobertos
pelo peso de uma mulher.

[Catarina Nunes de Almeida, in Prefloração]

À espera...

...do milagre das rosas.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Sou toda ouvidos


terça-feira, 12 de maio de 2009

i não é que é estranho?

Será que é só a mim que causa estranheza o facto de, com a criação de um diário nacional, a Sojormedia continuar a ter cinco semanários regionais integrados na Rede Expresso (Jornal do Centro, O Aveiro, O Eco, O Ribatejo e o Região de Leiria)?

Não sei, pode ser ingenuidade minha (será com certeza), mas soa-me a esquisito que um grupo de comunicação (que agora tem um jornal nacional) ande a ceder notícias à concorrência. Sim, porque é cedência. Os jornalistas do jornais regionais não ganham mais por verem os seus textos publicados no Expresso.

A parceria só se manterá se houver cifrão a falar mais alto, que o Grupo Lena não tem feitio benemérito. A Rede Expresso, constituída pelo Expresso e 17 jornais regionais, para além da colaboração editorial, desenvolve parcerias também no campo da publicidade. Sendo o projecto gerido pela central de publicidade Meioregional, participada por quem, por quem? Pela Sojormedia.

Será que a Sojormedia despreza assim tanto as suas publicações regionais ao ponto de, tendo em conta uma estratégia comercial, ceder conteúdos dos regionais para o semanário do grupo Impresa?

Estranho que, ainda há duas semanas, jornalistas dos jornais regionais da Sojormedia tenham ido a Lisboa ter uma acção de formação...no Expresso, sem passagem pela "nova-rica" redacção do i. Foi com certeza por uma questão de prudência, não fossem os jornalistas da "província" querer também frutinha fresca na redacção ou um espaço lounge para descomprimir.

Enquanto nasce o i, desfalecem os jornais O Aveiro e O Eco. Para já, estes semanários passam a mensários e gratuitos. Qual será o desfecho, qual será?

domingo, 10 de maio de 2009

Reverso























«Se a beleza, cuja perfeição rejeita a animalidade, é apaixonadamente desejada é porque nela a posse introduz a mancha animal. É desejada para ser manchada. Não por si mesma, mas pela alegria gozada na certeza de a profanar.
No sacrifício, a vítima era escolhida de tal modo que a perfeição tinha por fim tornar sensível a brutalidade da morte».


[Georges Bataille, in O Erotismo]


Beleza, náusea. Intimidade, violação. Amor, brutalidade sexual. A subtileza de Monica Belucci [deusa, deusíssima], a corrupção moral do personagem Ténia. O destapar da boca, na cama, no túnel, porque as premonições não se calam. Não se entra em «Irreversível» confortavelmente. A banda sonora irritante, as imagens que nos colocam a cabeça do avesso, o nojo. O filme, de Gaspar Noé, entra em nós, lancinante. Permanece em nós, no estômago. Um filme brilhante, no toque do buraco negro da matéria humana.


quinta-feira, 7 de maio de 2009

i quê?

Gostei do formato do "i", mas os conteúdos da primeira edição não me impressionaram. Primeira página sem graça e sem cacha.
Na ficha técnica, reparei que o "i" tem delegações em Aveiro, Coimbra, Faro, Leiria, Porto, Santarém e Viseu. Ou seja, as delegações serão as redacções dos jornais regionais da Sojormedia/Lena Comunicação. Aguardo, com curiosidade, para ver de que forma vai existir troca de sinergias entre os parentes pobres e a jóia da coroa da Sojormedia.
Imagem de Valerie Kabis


Hoje podes deitar-te na minha cama
e contar-me mentiras - dizer, não sei,
que o amor tem a forma da minha mão
ou que os meus beijos são perguntas que
não queres que ninguém te faça senão

eu; que as flores bordadas na dobra do
meu lençol são de jardins perfeitos que
antes só existiam nos teus sonhos; e que
na curva dos meus braços as horas são
mais pequenas do que uma voz que no

escuro se apagasse. Hoje podes rasgar
cidades no mapa do meu corpo e
inventar que descobriste um continente
novo - uma pátria solar onde gostavas
de morrer e ter nascido. Eu não me

importo com nada do que me digas esta
noite: amo-te, e amar-te é reconhecer o
pólen excessivo das corolas, o seu vermelho
impossível
. Mas amanhã, antes de partires,

não digas nada, não me beijes nas costas
do meu sono. Leva-me contigo para sempre
ou deixa-me dormir - eu não quero ser
apenas um nome deitado entre outros nomes.


[Maria do Rosário Pedreira, in Nenhum Nome Depois]




P.S. Este livro já cá mora há uns anos. Mas não o folheava há bastante tempo. Fiquei arrepiada ao ler a frase a negrito. Pólen, vermelho. Uns posts atrás e percebe-se a razão do meu espanto.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O amor é cego


No braço da viola de amor, um cupido de vendados olhos. A viola de amor, com as suas 14 cordas: 7 melódicas e 7 simpáticas. Aprendo, com o violeiro, que as cordas simpáticas não tocam, mas vibram por simpatia harmónica ao toque das outras cordas.

O que tem o coração? Cordas de viola.

Beleza instrumental


Mãos hábeis, inteligência ágil, perseverança, seguimento sábio do ditado paterno [ausente de paternalismos]: «O que merece ser feito, merece ser bem feito». Beleza instrumental. As curvas vibratéis. O violino, a alma de madeira.

Ainda não digeri quase oito horas, oito, de conversa ininterrupta. Tenho trabalho árduo pela frente. A selecção de informação é sempre mais dolorosa que a recolha. [Dói, pois dói]

«Quando somos jovens temos muitas arestas mentais; tudo na vida tende a ficar esférico», filosofou o violeiro. A esfera,

ter maior volume em menor superfície. Sapiência.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

(des)norte


Três dias passados com vista para o mar. E não houve o apelo marítimo. Nem um pé na areia [e bastaria atravessar a rua]. Definitivamente, sou mais uma rapariga do campo do que do mar. Sou mais do verde do que do azul, mais do que se transforma durante as quatro estações do que das marés. Das dunas guardei o odor a caril das perpétuas-das-areias. Nos passos trouxe a serenidade do trajecto de pinhal entre Apúlia-Ofir-Fão. O cheiro quente da natureza.

Paz, riso, fuga à rotina, pêlo de cão, conversas descontraídas, cansaço do bom.

O norte e o desnorte dão muito sentido à vida.