quinta-feira, 21 de maio de 2009

Sonhos (de)pendurados






«- Sabem por que é que o mercado da pintura está a disparar assim? - explicava Hugh. - Muito simplesmente porque as pessoas não têm tempo para sonhar, e então compram sonhos. "Há a televisão", dirão vocês. Pois é, mas a televisão é como água, aquelas imagens vão-se e ninguém tem tempo de tornar a vê-las no vídeogravador. O quadro, pelo contrário, fixa. A pintura sonha e fixa».


[Julia Kristeva, in Os Samurais]

domingo, 17 de maio de 2009

Vida.com



Já vos disse o quão me toca este filme? Não, pois não. Nem conseguiria quantificar.

A minha vida enche-se de ternura com «A minha vida sem mim», de Isabel Coixet. Uma pérola, que guardo na concha das vibrações emocionais.

Pés de barro

O Modelo Vermelho (1937), René Magritte


CANCER CELLS


"Cancer cells are those which have forgotten how to die."
(Nurse, Royal Marsden Hospital)

They have forgotten how to die
And so extend their killing life.

I and my tumour dearly fight.
Let's hope a double death is out.

I need to see my tumour dead
A tumour which forgets to die
But plans to murder me instead.

But I remember how to die
Though all my witnesses are dead.
But I remember what they said
Of tumours which would render them
As blind and dumb as they had been
Before the birth of that disease
Which brought the tumour into play.

The black cells will dry up and die
Or sing with joy and have their way.
They breed so quietly night and day,
You never know, they never say.


O dramaturgo britânico Harold Pinter, que morreu, aos 78 anos, vítima de cancro, escreveu este poema em 2002. Há uns anos, um amigo, colega da redacção de então, tinha um recorte de jornal, com este poema, colado na lateral esquerda do computador. Lembrei-me do poema hoje.


Este fim-de-semana, um jantar, em casa de uma amiga, fez-me reencontrar com uma antiga colega de trabalho. A F. minguou. O corpo da F. parece querer ocupar o menor espaço possível, como se, perdendo volume, houvesse menor espaço interior para a dor. O pai da F. também vai perdendo peso, à medida que as células-que-se-esqueceram-de-morrer se estendem como sombra. O corpo do pai de F. foi aberto, para logo ser fechado. Porque o tumor se tornou dono e senhor daquele corpo.


O pai de F. está a morrer e F. está à beira da implosão. A médica que acompanha o pai, no hospital, disse-lhe que ela este fim-de-semana tinha de contar tudo, tudo, à mãe. A mãe de F. está ainda na fase da negação. A irmã de F. está nuns 19 anos muito egocêntricos, não tem noção de que o pai está a morrer. Há um ano, F. explicou à mãe que o tumor não foi removido, que a cirurgia serviu apenas para aliviar, não para eliminar. A mãe alheou-se da realidade. E agora F. tem de lhe colocar os pés na terra. E como fazer isso, sem enterrar a esperança?


Como dizer à mãe para aproveitar os últimos tempos de vida do pai? Como contar à mãe aquilo de que a mãe já se deveria ter mentalizado há um ano? Como nomear aquilo de que se quer fugir? Como falar da iminência da morte, sem fazer uma espécie de luto antecipado? Como ser frontal com a mãe, sem lhe dar um abraço? [um abraço que F. não se sente capaz de dar porque não está habituada a abraçar a mãe e sabe que abraçá-la agora é admitir a gravidade da situação, é revelar a vulnerabilidade]

F. descobriu, há dias, que o pai tinha cócegas nos pés. F. comprou um creme gordo para hidratar os pés do pai, no hospital. Ao massajar os pés descobriu o que, em anos de convivência, ainda não tinha descoberto.


F. sabe que eu estava a conversar com ela e a sentir-me descalça, com pés de barro.


quinta-feira, 14 de maio de 2009

Fertilidade







Hoje, como há 35 mil anos, o erotismo. O corpo feminino como campo sem pousio. Seios e ventre em crescente arredondar, a perpetuação da mortalidade. Imortal desejo de ser, em comunhão.




As ondas rebentaram na saia
muito perto da estrada de pó.
O teu corpo por escrito em cima da mesa:
«Pégaso trocou as asas pelo peso de uma mulher».

Fomos recebendo o dia como se ele fosse
as margens e a sombra e nós
o caudal lento entre as pernas da terra.
Cada gota um meio. Nem princípio nem fim.

E o dia chegou nu sem penas nem pêlos
igual aos animais alados cobertos
pelo peso de uma mulher.

[Catarina Nunes de Almeida, in Prefloração]

À espera...

...do milagre das rosas.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Sou toda ouvidos


terça-feira, 12 de maio de 2009

i não é que é estranho?

Será que é só a mim que causa estranheza o facto de, com a criação de um diário nacional, a Sojormedia continuar a ter cinco semanários regionais integrados na Rede Expresso (Jornal do Centro, O Aveiro, O Eco, O Ribatejo e o Região de Leiria)?

Não sei, pode ser ingenuidade minha (será com certeza), mas soa-me a esquisito que um grupo de comunicação (que agora tem um jornal nacional) ande a ceder notícias à concorrência. Sim, porque é cedência. Os jornalistas do jornais regionais não ganham mais por verem os seus textos publicados no Expresso.

A parceria só se manterá se houver cifrão a falar mais alto, que o Grupo Lena não tem feitio benemérito. A Rede Expresso, constituída pelo Expresso e 17 jornais regionais, para além da colaboração editorial, desenvolve parcerias também no campo da publicidade. Sendo o projecto gerido pela central de publicidade Meioregional, participada por quem, por quem? Pela Sojormedia.

Será que a Sojormedia despreza assim tanto as suas publicações regionais ao ponto de, tendo em conta uma estratégia comercial, ceder conteúdos dos regionais para o semanário do grupo Impresa?

Estranho que, ainda há duas semanas, jornalistas dos jornais regionais da Sojormedia tenham ido a Lisboa ter uma acção de formação...no Expresso, sem passagem pela "nova-rica" redacção do i. Foi com certeza por uma questão de prudência, não fossem os jornalistas da "província" querer também frutinha fresca na redacção ou um espaço lounge para descomprimir.

Enquanto nasce o i, desfalecem os jornais O Aveiro e O Eco. Para já, estes semanários passam a mensários e gratuitos. Qual será o desfecho, qual será?

domingo, 10 de maio de 2009

Reverso























«Se a beleza, cuja perfeição rejeita a animalidade, é apaixonadamente desejada é porque nela a posse introduz a mancha animal. É desejada para ser manchada. Não por si mesma, mas pela alegria gozada na certeza de a profanar.
No sacrifício, a vítima era escolhida de tal modo que a perfeição tinha por fim tornar sensível a brutalidade da morte».


[Georges Bataille, in O Erotismo]


Beleza, náusea. Intimidade, violação. Amor, brutalidade sexual. A subtileza de Monica Belucci [deusa, deusíssima], a corrupção moral do personagem Ténia. O destapar da boca, na cama, no túnel, porque as premonições não se calam. Não se entra em «Irreversível» confortavelmente. A banda sonora irritante, as imagens que nos colocam a cabeça do avesso, o nojo. O filme, de Gaspar Noé, entra em nós, lancinante. Permanece em nós, no estômago. Um filme brilhante, no toque do buraco negro da matéria humana.


quinta-feira, 7 de maio de 2009

i quê?

Gostei do formato do "i", mas os conteúdos da primeira edição não me impressionaram. Primeira página sem graça e sem cacha.
Na ficha técnica, reparei que o "i" tem delegações em Aveiro, Coimbra, Faro, Leiria, Porto, Santarém e Viseu. Ou seja, as delegações serão as redacções dos jornais regionais da Sojormedia/Lena Comunicação. Aguardo, com curiosidade, para ver de que forma vai existir troca de sinergias entre os parentes pobres e a jóia da coroa da Sojormedia.
Imagem de Valerie Kabis


Hoje podes deitar-te na minha cama
e contar-me mentiras - dizer, não sei,
que o amor tem a forma da minha mão
ou que os meus beijos são perguntas que
não queres que ninguém te faça senão

eu; que as flores bordadas na dobra do
meu lençol são de jardins perfeitos que
antes só existiam nos teus sonhos; e que
na curva dos meus braços as horas são
mais pequenas do que uma voz que no

escuro se apagasse. Hoje podes rasgar
cidades no mapa do meu corpo e
inventar que descobriste um continente
novo - uma pátria solar onde gostavas
de morrer e ter nascido. Eu não me

importo com nada do que me digas esta
noite: amo-te, e amar-te é reconhecer o
pólen excessivo das corolas, o seu vermelho
impossível
. Mas amanhã, antes de partires,

não digas nada, não me beijes nas costas
do meu sono. Leva-me contigo para sempre
ou deixa-me dormir - eu não quero ser
apenas um nome deitado entre outros nomes.


[Maria do Rosário Pedreira, in Nenhum Nome Depois]




P.S. Este livro já cá mora há uns anos. Mas não o folheava há bastante tempo. Fiquei arrepiada ao ler a frase a negrito. Pólen, vermelho. Uns posts atrás e percebe-se a razão do meu espanto.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O amor é cego


No braço da viola de amor, um cupido de vendados olhos. A viola de amor, com as suas 14 cordas: 7 melódicas e 7 simpáticas. Aprendo, com o violeiro, que as cordas simpáticas não tocam, mas vibram por simpatia harmónica ao toque das outras cordas.

O que tem o coração? Cordas de viola.

Beleza instrumental


Mãos hábeis, inteligência ágil, perseverança, seguimento sábio do ditado paterno [ausente de paternalismos]: «O que merece ser feito, merece ser bem feito». Beleza instrumental. As curvas vibratéis. O violino, a alma de madeira.

Ainda não digeri quase oito horas, oito, de conversa ininterrupta. Tenho trabalho árduo pela frente. A selecção de informação é sempre mais dolorosa que a recolha. [Dói, pois dói]

«Quando somos jovens temos muitas arestas mentais; tudo na vida tende a ficar esférico», filosofou o violeiro. A esfera,

ter maior volume em menor superfície. Sapiência.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

(des)norte


Três dias passados com vista para o mar. E não houve o apelo marítimo. Nem um pé na areia [e bastaria atravessar a rua]. Definitivamente, sou mais uma rapariga do campo do que do mar. Sou mais do verde do que do azul, mais do que se transforma durante as quatro estações do que das marés. Das dunas guardei o odor a caril das perpétuas-das-areias. Nos passos trouxe a serenidade do trajecto de pinhal entre Apúlia-Ofir-Fão. O cheiro quente da natureza.

Paz, riso, fuga à rotina, pêlo de cão, conversas descontraídas, cansaço do bom.

O norte e o desnorte dão muito sentido à vida.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Apagão

Apaguei o conteúdo deste post sobre a Margarida Menezes, fundadora do Clube das Virgens. Fui demasiado dura com ela [e não é que também o estava a ser comigo mesma?!]. Fui profundamente contraditória, como tão bem o Alex me soube mostrar.
Mantenho o comentário que o Alex fez ao conteúdo que aqui tinha até ao apagão. O Alex é inteligente, é amigo, vê-me [bendito olho de gato]. O comentário permanece porque foi a parte melhor do post. Obrigada Alex.

Viva a biodiversidade.

Não gosto de conversas porcas...

por isso não vou falar da gripe suína.
O que é demais já cheira mal.

Os media ainda não se lembraram de contabilizar o número de pessoas que morre de tédio? Ou o número de pessoas que morre de susto? Ou o número total de pessoas que, por dia, simplesmente morre, de morte morrida ou de morta matada ou de morte fictícia?

Vou perdendo a paciência para um empol(g)amento jornalístico que esconde, debaixo dos saiotes do sensacionalismo, a verdadeira notícia. A verdade pode ser muito pouco interessante, como se pode ver
aqui ou aqui. Então, limpe-se o ruído e o espirro histérico. Santinho.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Confiança


- «Sim, porquê?» - respondeste tu.

Por vezes, para nos aquecer o peito, precisamos apenas de uma resposta concisa a uma pergunta frontal, em que queremos um sim ou um não [naquele momento, não queria uma resposta arco-íris, queria simplesmente o preto e o branco]. Uma resposta que - vinda de ti - tinha de trazer uma pergunta às costas. Eu respondi-te que às vezes há coisas que sabem bem ouvir. E tu sorriste. Podes perguntar: «Como viste o sorriso à distância de um écrã, sem webcam ligada?»


Mas vi-o. Os olhos não vêem tudo.

Comoveu-me o «sim, porquê?». Eu sou assim. Às vezes comovo-me com as coisas menos óbvias, com as coisas pequeninas, ninas, minhas, significantes de tão insignificantes. A questão não foi a resposta à pergunta. Foi a resposta àquela pergunta num dia como o de hoje. Foi a conversa que antecedeu aquela pergunta, é a confiança que permanece quando estamos em silêncio. Neste preciso dia, ver-te escrever aquela resposta era tudo o que eu precisava. E não te sei explicar porquê. É tão bom haver confiança, quando tudo se afigura devoradoramente volátil.


[Fui usurpar a foto ao blogue da Menina Limão porque é puro discurso visual sobre confiança]

Agora vou aqui revirar a alma, para ir para a cama uns metros acima do chão.




[Só espero que, nos sonhos, não me apareça a Manuela Ferreira Leite a deitar a língua de fora ao Mário Crespo, à porta de um certo supermercado de bairro]

Estado da Questão

Imagem de Koltsova Ekaterina



O que os outros escreveram sobre o teu corpo não sei.
O que as outras escreveram no teu corpo não me interessa.
Sei que nunca viste o teu rosto - e será que a água te engana?
será que tens rosto?

De todas as dúvidas eu te dissiparei
- abandona-te nas minhas mãos científicas
ou ciosas.


Sei que nunca viste as tuas costas. Lá chegarei.
Cuidemos em vigiar o tempo.


[Joana Serrado, in Tratado de Botânica]

domingo, 26 de abril de 2009

Bela adormecida

Imagem de Sophie Pawlak



Ela tinha pés de barro
e sonhos em brasa.
Nas mãos, o evanescente.

[ânsia crescente]

Quis regressar à infância,
mas encontrou demolida a memória: sem migalhas,
sem Hansel e Gretel.

[ então, acabou por perceber que a idade adulta era uma maçã envenenada; a infância uma bela adormecida]


Sou toda ouvidos

Tudo o que temos

Imagem de Thierry Magniez


«Costumo dizer uma coisa: o amor é a bondade que se aplica a tudo. É a bondade, é a beleza. (...) O amor é o principal veículo de comunicação. De maneira que o amor ou a bondade é tudo o que temos. Memória é tudo o que temos, palavra é tudo o que temos, e as palavras são a forma de podermos, eventualmente, tocar a fímbria do amor e da memória.»


[Manuel António Pina, entrevistado por Anabela Mota Ribeiro, in Pública 26.04.2009]

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Sou toda ouvidos

Hoje é dia de "objectos transcendentes".

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Novo mandamento: Não tuitarás



Pronto. Já encontrei um argumento de peso , para justificar o meu desinteresse pelo Twitter. Eu podia até argumentar sentir aversão a mais uma distracção tecnológica, podia dizer que se tratava de embirração por uma rede social que, pela sua natureza, «pressiona» a que tenha de dizer alguma coisa minimamente inteligente de hora a hora. Mas esta argumentação não convenceria os tuiteiros mais agarraditos. Agora sim, sinto as costas bem quentes. Não quero correr riscos emocionais. Obrigada António Damásio.


Se fosse homem...

...e tivesse visto ontem o programa Bairro Alto, na RTP2, ter-me-ia apaixonado por Zita Martins. Como sou mulher heterossexual, partilho aqui a minha admiração por esta jovem astrobióloga que é investigadora associada no Imperial College London. Eu, que tenho um maior interesse pelas ciências humanas que pelas ciências naturais, fiquei colada ao televisor a ouvir falar de astrobiologia.

Uma mulher inteligente, interessante, boa comunicadora e determinada. Com estas qualidades é fácil cativar as pessoas, quando se fala, para leigos, de matérias aparentemente complexas. Esta investigadora vai longe, só pode ir muito longe, mesmo que não queira pôr os pés em Marte.



[E ainda por cima, Zita Martins é bonita que se farta]






segunda-feira, 20 de abril de 2009

Give power to designers

Depois de ter visto publicada a minha mais recente reportagem, só posso usurpar as palavras de Jacek Utko: "Give power to designers!". Pleaseeeeeeeeee.


sábado, 18 de abril de 2009

Precisar de ar, ar, árvore

Aqui não deixo de ver poesia ensanguentada. O bisturi a abrir uma metáfora.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Prima obra

Imagem de Oana Cambrea


Paolo Giordano não desiludiu. Bendita hora em que este investigador de Física decidiu dar uso à parte do cérebro desperdiçada. Bendita hora em que deixou crescer Mattia e Alice. O olhar não defrauda.


«Os números primos apenas são divisíveis por 1 e pelo próprio número. Estão no lugar que lhes é próprio na infinita série dos números naturais, esmagados como todos entre dois, mas um passo mais além relativamente aos outros. São números desconfiados e solitários e, por isso, Mattia achava-os maravilhosos. (...)

Numa cadeira do primeiro ano Mattia estudara que entre os números primos há alguns que ainda são mais especiais. Os matemáticos chamam-lhes primos gémeos: são pares de números primos que estão próximos um do outro, aliás, quase próximos, pois entre eles existe sempre um número par que os impede de se tocarem realmente. Números como, por exemplo, 11 e 13, 17 e 19, 41 e 43. Tendo paciência para continuar a contá-los descobre-se que estes pares se vão tornando progressivamente mais raros. Descobrem-se números primos cada vez mais isolados, perdidos naquele espaço silencioso e cadenciado feito apenas de cifras e nota-se o pressentimento angustiante de que os pares encontrados até aí foram um facto acidental, cujo verdadeiro destino é o de ficarem sozinhos. Depois, quando se está prestes a desistir, quando já não se tem vontade de contar mais, eis que se descobrem, abraçados mais dois gémeos. Entre os matemáticos é convicção comum que por mais que se avance na contagem, existirão sempre mais dois, ainda que ninguém saiba dizer onde, até serem descobertos.

Mattia achava que ele e Alice eram assim, dois primos gémeos, sós e perdidos, próximos mas não o suficiente para se tocarem realmente. A ela nunca lho dissera. Quando imaginava confessar-lhe estas coisas, a fina camada de suor sobre as mãos evaporava-se por completo e durante uns bons dez minutos não era capaz de tocar em nenhum objecto».


[Paolo Giordano, in «A solidão dos números primos»]

terça-feira, 14 de abril de 2009

Tragedy is no longer possible




A metáfora do cuco, a promessa de densidade narrativa. De um filme que se inicia com a presença de uma ave parasita não se pode esperar nem enredo morno, nem personagens planas. O cuco fêmea ronda um ninho alheio e põe um ovo. Para que a dona do ninho não se aperceba da intrusão, o cuco devora um dos ovos. A mãe ave choca o ovo de cuco, como se fosse da sua ninhada. Com gestação mais curta, o cuco é o primeiro a nascer.

A saída da casca implica a morte prematura dos outros pássaros. O cuco vai atirando, para fora do ninho, os ovos que o rodeiam. A ânsia de sobrevivência. O cuco quer ser a única cria a receber alimento da mãe adoptiva. Um homem sai da prisão e a atenção recai sobre o cuco que tombara para o chão. A noção de Bem, enraizada naquele homem, impele-o a colocar o cuco dentro do ninho. O cuco elimina a cria que restara. A família morta, à nascença.

Em «Inferno», com guião de Krzystof Kielowski e realização de Danis Tanovic, paira a tragédia grega Medeia, de Eurípedes. Três filhas subterraneamente destruídas; três mulheres que nunca se libertaram do desamparo da infância. Uma mãe, muda e agarrada a uma cadeira de rodas, que, no final, nos tira o chão.

Os olhares daquelas mulheres – Carole Bouquet, Emmanuelle Béart, Marie Gillan e Karin Viard – perseguem-nos. No final, sabemos que o Inferno está no olhar que se arremessa sobre a existência, sobre o Outro. Previsível, o efeito bumerangue: o olhar que se atira devolve cinza. Na queda individual, a família em derrocada. E, porém, já não há lugar para a tragédia.

[Não falei em crueldade, pois não?]


«Greek society knew about tragedy because the Greeks believed in several gods and felt they were involved in their destiny. There was a confrontation between the mortal and the divine. Today, in a society that has deserted God, in a material world in which God is dead, tragedy is no longer possible. What is left is drama. And that is already a lot because although drama may be tragic, it is not however a tragedy».

Danis Tanovic, entrevistado por Gaillac-Morgue

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Sou toda ouvidos



Obrigada A., pelo envio de tamanha beleza. Pólen, abelhas. Picadas que fazem perder a inocência.

«When the dog bites, when the bee stings, when I'm feeling sad, I simply remember my favorite things and then I don't feel...»

sábado, 11 de abril de 2009

All you need is gods

Imagem de Helena Almeida


Não suportamos o silêncio. Precisamos de sinais, de sentido, de rituais inquestionáveis. Precisamos. Para nos distrairmos do absurdo [surdo, cego e mudo].Precisamos de um Zeus, de um Prometeu e de uma águia.


«A questão não reside no silêncio de Deus, mas no silêncio de nós próprios. Tornamo-nos seres mudos, atravessamos a vida sem dizer palavras fundamentais. E isso gera uma atmosfera que nos atordoa, a tal dor mansa quase vegetal de que falava Alexandre O'Neill. A dor do Homem».

José Tolentino Mendonça, in DNa [n.º 164,22.01.2000]

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Sou toda ouvidos

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Caligrafia da ternura

Imagem de Saunter


Um barco de papel.
Um barco de papel bastar-me-ia:
levar-me-ia até ao atol da eternidade.
Encontrasse eu a palavra inicial,
aquela que me devolvesse a inocência do pólen.


QUERO:
a caligrafia da ternura lavada pelas marés.

Bora lá até ao parque de campismo

250 mortos
1000 feridos
17.000 desalojados
1 frase sísmica :

«Não lhes falta nada. Têm cuidados médicos, comida quente... Claro que o actual lugar de abrigo é provisório, mas há que encarar a situação como um fim-de-semana no parque de campismo».

[Sílvio Berlusconi]

terça-feira, 7 de abril de 2009

Meia verdade

Imagem de Popok


Verdade


A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.


Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.


Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.



[Carlos Drummond de Andrade]

Perto demais


-"Alice, tell me one thing that is the truth?"
- "Lying is the most fun a girl can have without taking her clothes off...but it's better if you do."

Estou nos antípodas da reveladora Alice Ayres/Jane Jones. Inábil na arte de mentir ao outro. Perita na tentativa de mentir a mim mesma. Não passa de tentativa. A minha coerência interior fala sempre mais alto e mais dentro. Na verdade me escondo.


quarta-feira, 1 de abril de 2009

Mentira com flúor



Ela escancarava-se toda no sorriso.
Mas o sorriso mentia com quantos dentes tinha.
[Os quatro do siso choravam no regaço da língua]



«Oh, Mrs. Dalloway always giving parties, to cover the silence»




Quantos são os dias da mentira?



domingo, 29 de março de 2009

Colérica ignorância


A Linguística é para
aqui chamada, ó se é. Para quem ainda tivesse dúvidas, eis, em Moçambique, a constatação de que a ignorância mata.

Nem sempre as boas intenções são claras, por mais vermelha que seja a cruz. Por detrás do cloro, a cólera de quem ignora.

sábado, 28 de março de 2009

Metida num 31






Acabei de me meter num 31. E por cá estarei durante 12 meses, até soprar de novo as velas.

sexta-feira, 27 de março de 2009

La vie ne c'est pas une feuille blanche















«Ferdinand: - Porque estás triste?

Marianne: - Porque me falas com palavras e eu olho-te com sentimentos.

Ferdinand: - É impossível ter uma conversa contigo. Nunca tens ideias, só sentimentos.

Marianne: - Não é verdade. Os sentimentos contêm ideias.

Ferdinand: - Vamos tentar ter uma conversa séria. Diz-me do que gostas, o que queres, e eu farei o mesmo. Começa tu.

Marianne: - Flores, animais, o azul do céu, o som da música. Não sei. Tudo. E tu?

Ferdinand: - Ambição, esperança, o movimento das coisas, acidentes.

Marianne: -Que mais?

Ferdinand: - Não sei. Tudo.

Marianne: - Vês? Eu tinha razão há cinco anos. Não nos entendemos. »



Ele vive a literatura, vive na literatura, vive para a literatura. Ela quer viver a vida. Rastilho aceso, a união. Ele, azul, calmorte que arde. Ela, vermelho, lava em escorrência. Tão idênticos, tão distantes. Ela quer parar de fingir que está num livro de Júlio Verne e regressar, com ele, ao romance policial, com carros, armas e clubes nocturnos. O mar não lhe chega, a ela. A vida não é preto e branco, nem apenas espuma. É azul e vermelho, que escurecem. «Pedro, o Louco», de Jean-Luc Godard, é um filme assombroso e assombrado pela fenda [fecunda e mortífera] entre M e F, masculino e feminino, Marianne [Anna Karina] e Ferdinand [Jean-Paul Belmondo].

Matéria e antimatéria. O vermelho sobre o rosto azul. E a linha do destino que era mesmo curta, como o pavio. Explosão. Bumm!



quarta-feira, 25 de março de 2009

Sombra de dúvida




A carícia solar
aviva a sombra que nos habita.
O caminho _ trevas em incandescência.


[Olho para estas fotos, tiradas hoje à tarde, e lembro-me de uma certa conversa sobre matéria e antimatéria, das consequências violentas da união das duas, do aniquilamento mútuo. E não posso deixar de sorrir...a senhora dona Física conhece tão bem a alma humana, que até parece a Agustina Bessa-Luís]

domingo, 22 de março de 2009

Olhar com comprimento, altura, profundidade e milagre

Imagem de William Charpe


«Theodor fora ensinado pelo pai, Thomas Busbeck, que a inteligência era um índice do movimento do olhar. Se fizermos o cálculo, dizia Thomas Busbeck, da velocidade dos olhos dirigindo-se às coisas para as perceber, velocidade média durante um ano, teremos o valor da inteligência dessa pessoa, e tal bastará para adquirirmos uma ideia bastante precisa acerca da produção intelectual desse indivíduo. O mais breve encontro entre dois seres que não se conheçam bastará - se existir uma observação atenta do olhar do outro - para se captar a aptidão intelectual de cada um, mesmo que um e outro não troquem palavra. O que cada um diz não é suficiente: pode ser apenas boa memória - costumava afirmar o velho Thomas Busbeck - , se queres escolher um colaborador fecha os ouvidos e está atento aos olhos dele, à forma como eles se mexem: no fundo, ao modo como eles se atiram às coisas, como vêem um objecto e o rodeiam, como entram nele e depois saem ou ficam. O trajecto dos olhos no mundo dá o trajecto da inteligência
[Gonçalo M. Tavares, in Jerusalém]




«- Quando alguém procura - respondeu Siddhartha - pode acontecer que os seus olhos vejam apenas a coisa que ele procura, que não permitam que ele a encontre por que ele pensa sempre e apenas naquilo que procura, porque ele tem um objectivo, porque está possuído por este objectivo. Procurar significa ter um objectivo. Mas encontrar significa ser livre, manter-se aberto, não ter objectivos. Tu, Venerável, és talvez um homem à procura, pois, perseguindo o teu objectivo, muitas vezes não vês aquilo que está perante os teus olhos».

[Herman Hesse, in Siddhartha]


P.S. O título foi inspirado num poema de Gonçalo M. Tavares.

sexta-feira, 20 de março de 2009

A primavera de volta a casa














A alta hospitalar. A chegada a casa. O que os olhos da minha mãe ansiavam ver. Como gosto de a ver no meio da rebentação primaveril.



As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

[Daniel Faria]




domingo, 15 de março de 2009

Folhas secas

Imagem de Joan Kocak



Cada vez dou mais valor às pessoas que dão significado à minha vida. Cada vez dou mais valor a quem tenho e ao que tenho dentro de mim. E a quem traz dentro das suas vidas a minha família. Gosto-me cheia de emoções fortes. Às vezes despojada de palavras [como tem acontecido nestes últimos tempos]. E a valorizar, cada vez mais, o silêncio...e as doces interrupções de silêncio, 'impostas' pelo carinho dos amigos.

Tem havido dor, muita dor. Ver a tristeza, inquietação muda, no olhar da minha mãe. Ver a minha mãe a olhar para um corpo que, pela terceira vez, foi aberto no mesmo sítio. A doença como uma estranha que não pediu licença para entrar numa casa de carne e osso. A doença a esconder-se atrás de cortinas. Até um dia se comportar como elefante em loja de porcelanas. E surpreender. O estilhaço. O rasgão. Os agrafos. A costura.

A dor. A dor está-me a servir para colocar na devida ordem certas miudezas. Impõe-se uma imagem, ainda desfocada. Não vislumbro todos os contornos. Mas, sinto-me a abrir uma gaiola cheia de folhas secas. A sensação de estar na posse de uma gaiola de folhas secas, sabendo que a prisioneira afinal sou eu.

Quero deixar a gaiola vazia, de porta aberta. O tombo das folhas. Húmus.

Há dias, dei por mim a queimar, na lareira, todas as flores secas que encontrei cá em casa. Cada vez me parece mais incompreensível oferecer a alguém arranjos de flores secas. Gosto de ver o desabrochar das flores que a minha mãe tem semeado no jardim. Gosto das flores que, com o frio, adormecem, para voltar a despertar na primavera.

Flores secas estão ao nível do quadro do menino da lágrima. Pior só mesmo baptizar alguém com o nome de Maria das Dores.

domingo, 8 de março de 2009

Pausa



Ontem abriu-se uma brecha de beleza, num quotidiano que tem girado em torno do hospital. Em boa companhia, assisti ao concerto de Rodrigo Leão & Cinema Ensemble. Uma pausa. A beleza a entrar-me pelos ouvidos e pelos olhos. No final do concerto, dois olhos atentos às minhas palavras inquietas.


A neblina acompanhou-me na viagem de regresso a casa.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Fotossíntese

Imagem de Filipoiu Marius


Almofada de húmus, o leito.
O pólen vermelho na ronda do peito.

Queria dizer-te: fotossinto-te.


segunda-feira, 2 de março de 2009

Noite branca

Imagem de Anne-Julie Aubry


Encher de silêncio os olhos
e balouçar os sonhos
na raiz da penumbra