



«O título do livro pensara nele enquanto olhava fixamente para a montra de uma pastelaria cheia de porquinhos de maçapão. Há já algum tempo que eu andava interessada na questão do canibalismo simbólico.Na altura, eram os bolos de casamento, encimados pelos seus noivos de açúcar, que muito em particular me fascinavam», Margaret Atwood




Já vos disse o quão me toca este filme? Não, pois não. Nem conseguiria quantificar.
A minha vida enche-se de ternura com «A minha vida sem mim», de Isabel Coixet. Uma pérola, que guardo na concha das vibrações emocionais.
O Modelo Vermelho (1937), René Magritte







Imagem de Valerie Kabis
Imagem de Koltsova Ekaterina
Imagem de Sophie Pawlak
Imagem de Thierry Magniez
Imagem de Oana Cambrea

Imagem de Helena Almeida
Imagem de Popok
Matéria e antimatéria. O vermelho sobre o rosto azul. E a linha do destino que era mesmo curta, como o pavio. Explosão. Bumm!
Imagem de William CharpeTem havido dor, muita dor. Ver a tristeza, inquietação muda, no olhar da minha mãe. Ver a minha mãe a olhar para um corpo que, pela terceira vez, foi aberto no mesmo sítio. A doença como uma estranha que não pediu licença para entrar numa casa de carne e osso. A doença a esconder-se atrás de cortinas. Até um dia se comportar como elefante em loja de porcelanas. E surpreender. O estilhaço. O rasgão. Os agrafos. A costura.
A dor. A dor está-me a servir para colocar na devida ordem certas miudezas. Impõe-se uma imagem, ainda desfocada. Não vislumbro todos os contornos. Mas, sinto-me a abrir uma gaiola cheia de folhas secas. A sensação de estar na posse de uma gaiola de folhas secas, sabendo que a prisioneira afinal sou eu.
Quero deixar a gaiola vazia, de porta aberta. O tombo das folhas. Húmus.
Há dias, dei por mim a queimar, na lareira, todas as flores secas que encontrei cá em casa. Cada vez me parece mais incompreensível oferecer a alguém arranjos de flores secas. Gosto de ver o desabrochar das flores que a minha mãe tem semeado no jardim. Gosto das flores que, com o frio, adormecem, para voltar a despertar na primavera.
Flores secas estão ao nível do quadro do menino da lágrima. Pior só mesmo baptizar alguém com o nome de Maria das Dores.
Ontem abriu-se uma brecha de beleza, num quotidiano que tem girado em torno do hospital. Em boa companhia, assisti ao concerto de Rodrigo Leão & Cinema Ensemble. Uma pausa. A beleza a entrar-me pelos ouvidos e pelos olhos. No final do concerto, dois olhos atentos às minhas palavras inquietas.
A neblina acompanhou-me na viagem de regresso a casa.